Confiável amiga

Quando me levanto da latrina,
perscruto a minha dejeção, para adorá-la,
agradecê-la, louvá-la pela sua jornada altruísta,
pela sua sina heróica, suicida, pela sua boa vontade
em dar-me a sua vida. Desde cedo, ainda saborosa comida,
anseia drenar-se pelas minhas tripas, entregue a fatal corrida.
Antes, sem socorro, triturada à partida, torna-se bolo,
papa, suco, areia, xarope, escultura. Esvaída, finalmente,
do meu labirinto de entranhas, verte-se, falecida,
pela louça branca e mergulha, audaz,
no seixo igualmente sinuoso de esgotos,
o qual encontrará depois da cloaca fedida.

Gravo aqui a minha ode modesta à minha bosta querida,
doadora de santo nutrício, confiável amiga.
Leva consigo os meus segredos, as minhas desditas,
ao cumprir o seu desígnio divino, que não acaba,
porquanto, com sorte, lá na frente enterrada, revivida,
resultará em árvore, flor, mato ou praga,
perpetuando a sua missão excelsa de ensinar
que existir é não julgar o fado que se nos incida,
mas vivê-lo a fundo, certo de que a presença
do mais ínfimo ao mais ilustre ser na Terra ou na vila
revela além do que aquilo que indica
a sua por vezes sorumbática figura.

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