Carúncula

Um espinha por mim golpeada
com a lâmina de barbear
no início da semana passada.
No dia seguinte, uma nova cissura
feita com a mesma navalha.
Mais um corte e depois outro,
nos dias subsequentes,
em prol da minha cara polida.

A espinha fez-se ferida.
Revoltada, criou uma crosta.
Agora tornou-se carúncula
com feição enraivecida.
Eu sucumbi à sua raiva
exposta sobre o meu lábio,
embaixo da ventana direita.
Já não faço a barba,
nem lhe imponho a tortura.
Passei a respeitar sua existência.

Deixo-a compor o meu semblante,
mostrando, veemente,
a minha automutilação.
Seu discurso eloquente
serve-me de admoestação:
posso ser meu pior inimigo,
verdugo da minha integridade,
como o fui naquela semana.

Do suplício da espinha ferida,
palavras amigas, involuntárias,
expõem as sequelas horríficas
de toda ação infeliz.

A peste revela a ganância
da humanidade entufada,
como a chaga traduz a insídia
da família desafeiçoada,
ou a parva atrocidade que brota
duma alma hedionda.

Atrás da força viciosa,
a modéstia da natureza enjeitada:
a espinha magoada se inclina
ante a minha expiação conformada.
Enfim, com a incumbência cumprida
é hora de despencar da minha cara.

A lâmina esquecida
desde a semana passada.
A barba crescida
protege a ferida curada.

O infortúnio vaticina
o que o medo sublima.
A vida espreita a violência
no decorrer da melhora.

A tirania externa a fraqueza
de uma comunidade frustrada,
como a vaidade exprime
a ânsia duma vida leviana.

Anúncios

2 comentários sobre “Carúncula

  1. Uma acne vivificou uma crítica imensa à sociedade. Parabéns pelo poema! Gostei especialmente dos versos seguintes:

    “A peste revela a ganância
    de uma humanidade entufada,
    como a chaga traduz a insídia
    de uma família desafeiçoada,
    ou a parva atrocidade que brota
    duma alma hedionda.”

    Todavia, assumo que há outros que também me instigam a pensar, a não deixar o meu cérebro morrer e a reflectir sobre a minha alma, sobre as acnes da minha alma. Afinal, “Todo infortúnio vaticina / o que o medo sublima.”

    1. Seu comentário é-me muito valioso. Eu estou, neste momento, buscando interpor os meus sentimentos e memórias a dimensões mais amplas, como as sociais, ou mesmo as cósmicas. Até porque as nossas memórias estão de certa forma conectadas à memória do Universo. Ops! Melhor parar com a divagação e me concentrar na poesia 😀 Obrigado pelo seu apoio e presença.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s