Consórcio das Lástimas

O mundo é perigoso às mulheres.
Do sofá à cama, uma pancada, uma tara.
Sob a mira desgraçada
de televisões idiotas.

Aquelas, porém, não são as únicas vitimizadas.

O mundo também é perigoso às gueis e às travas.
Ao virar a esquina, uma lampadada, um chute, uma vara.
Sob a mira sinistra
de religiosidades ineptas.

Em nome de um deus autoritário,
avoluma-se a gente assestada.

O mundo é perigoso aos negros e aos indígenas.
Na ida à escola ou à praça, uma bala na cara.
Sob a mira funesta
de oligarquias gananciosas, militarizadas.

Ainda há mais pobres, feridos,
no continuar desta estrada.

Pouco resta aos que sofrem
senão o consórcio das lástimas,
a soma das forças, o repartir das falas.
Ante o nosso abatimento, o terror avulta.

Que o transtorno ceda a enlaces irmanados,
a evitarem terra arrasada num entroncamento de angústias.

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6 comentários sobre “Consórcio das Lástimas

  1. Murilo, ao ler o teu poema ocorreram-me logo duas coisas:

    1- No que diz respeito a diferenças de género, em qualquer parte do mundo a insegurança atinge mais as mulheres do que os homens. Existem vários factores em jogo, mas um dado parece determinante: a força física do homem é superior. Sabendo-se isso e fazendo uso indevido da coordenada, ou apenas o facto de se saber ser assim, condiciona em muito os passos que elas dão, por onde se movimentam e quando.
    Creio que se fala menos do que se devia sobre esta questão.

    2 – Fizeste-me lembrar o “Fevereiro” da Matilde Campilho, até porque por coincidência tinha dado com ele. Deixo-o aqui:

    Fevereiro

    Escute só, isto é muito sério.

    Anda, escuta que isso é sério!

    O mundo está tremendamente esquisito. Há dez anos atrás o Leon me disse que existe uma rachadura em tudo e que é assim que a luz entra, não sei se entendi. Você percebe alguma coisa da mistura entre falhas e iluminação?

    Aliás, me diga, você percebe alguma coisa de carpintaria? Você sabe por que meteram um boi naquele estábulo ao invés de um pequeno rinoceronte? Deve ter tido alguma coisa a ver com a geografia. Ou com os felizmente insolussionáveis mistérios que só podem vir do misticismo asiático. Um boi é um bicho tão… inexplicável. Ainda bem.

    O amor é um animal tão mutante, com tantas divisões possíveis.
    Lembra daqueles termômetros que usávamos na boca quando éramos pequenininhos? Lembra da queda deles no chão?

    Então, acho que o amor quando aparece é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo. Quando o vidro do termômetro se quebra, o elemento químico se espalha e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas. Mercúrio se multiplicando. Acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor.

    Ah é! Eu gosto de você. A luz entrou torta por nós a dentro, mas, olha, eu gosto de você! A luz do verão passado quebrou o vidro da melancolia e agora ela fica se expandindo pelas ruas todas. Desde aquele outro lado do Sol até esse tremendo agora.

    Hoje ainda faz bastante frio. As cinzas ainda não aterraram sobre as cabeças disfarçadas, tem gente batucando suor e cerveja pelas ruas de nossa cidade sul. Na cidade norte, há ondas de sete metros tentando acertar no terceiro olho dos rapazinhos disfarçados de cowboys.

    O mestre ainda não veio decretar o começo da abstenção e, olha, a luz ainda está connosco. Sim, o mundo está absurdamente esquisito. Já ninguém confia nas imposições dos prefeitos, a esta hora na terra é um tanto carnaval, um tanto conspiração, um tanto medo. Metade fé, metade folia, metade desespero. E, provavelmente, a esta hora, uma metade do mundo está vencendo e a outra metade dormindo, há ainda outra metade limpando as armas, outra limpando o pó das flores. Mas, por causa do que me ensinou o místico, eu acredito que exista, agora, alguém profundamente acordado. Alguém que esteja vivendo entre o intervalo tênue entre o sonho e a agilidade. Suponho que ele saiba perfeitamente que este começo de século será nosso batismo do voô para nossa persistência no amor. João molhou a testa de Manuel. Os gritos das ruas molham as testas de nossos corações.

    De que lado você está, eu não me importo! De que garfo você come, de que copo você bebe, que posto certo você escolhe, qual é seu orixá, seu partido, sua altura, de qual de suas cicatrizes cuida, que pássaro você prefere, quem é seu pai, qual é seu samba, Pinot noir ou Chardonay, que protetor você usa, qual é sua pele, seu perfume, qual político, quantos amores você sonha, em que Fernando, em que Ofélia, em que cinema, em que bandeira, em que cabelo você mora, qual dos túneis de Copacabana. Rezo para seus santos quando atravessar.

    É… é impossível viver no país de Deus. Isso eu te dou de barato. Mas, atravessar o gramado de Deus em bicicleta, isso não é impossível, não.

    Escuta, isso é sério!

    Andamos crescendo juntos, distraidamente. As árvores crescem conosco. Nossa pele se estende, nosso entendimento, teso, também. O século cresce conosco. O amor pelas ventas da cara do mundo, também.
    Quanto a um pra um entre nós dois, isso logo se vê. Não sei nada sobre a paixão, suspeito que você também não. Mas, começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos. Dois pra lá e dois pra cá.

    Portanto, escute.
    Isto é muito serio!
    Isto é uma proposta aos trinta anos.

    Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa, vem comigo achar o meu trono mágico entre a folhagem. E, no caminho até lá, vem dançar comigo, vem!

    Também se pode ouvir aqui: https://www.youtube.com/watch?v=VasLnEWnAxY

    1. Cara Isabel, obrigado pelo seu comentário e pela indicação do conto da Matilde Campelo.

      Quanto à cultura misógina, penso que a diferença em termos de força física é um dado a ser levado em conta, porém o maior entrave para a superação desta verdadeira calamidade que ainda se abate sobre as mulheres é a manutenção do que se chama, ao menos no Brasil, de cultura do estupro, proliferação de modo muitas vezes subliminar e sutil nos diversos “produtos” de consumo massivo, bem como em templos e parlamentos.
      Abraço.

  2. É a crise do “homem macho branco”, reação contra o empoderamento … Entretanto, no caso das mulheres, o patriarcado consegue determinar um padrão na maioria dos machos … brancos, negros, pobres, ricos, jovens, velhos, altos, baixos, gordos, magros, feios s lindos, afff … !!!
    O poema é lindo, apesar dá aspereza… Me lembrou uma fase do Ferreira Gular.

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