A Cor da Saudade

É uma saudade púrpura
Daquela tarde junina:
Lena, Zé, vó Isabel.
É Sábado: o Largo exulta,
a Feira antecede a Festa.

Uma prostituta triste e feia,
a babá de um cheiroso neném,
uma criança faminta e o seu cão,
um fusca verde abacate.

Eu correndo de volta.
A memória desencanta
um rasgo de sentimento.

Poderia ter curtido
melhor o momento.
Mas, pronto, aqui estou.

Esta áspera sensação, um ardor.
O cantar das minhas irmãs marcava as horas dos dias.

A cadela Catita, a balaustrada,
uma trouxa da nossa roupa
sobre Felícia, a abnegada.

A Ladeira, o suor grudado à pele,
o rio lá embaixo.
É hora de me banhar.

Lúgubres, à porta de casa,
Du Piru, Detina,
Maria – A Doida,
eu e Arlinda.

Mainha, no Armarinho ou no Necy,
enquanto o meu pai pela cidade policiava.

Na Venda, o olor a Cachaça
e a meninada à espera
do anoitecer para ver
televisão na praça.

Tão dentro,
morna num sábado,
tarde íncuba.

Uma vida inteira à frente,
um fio de ressentimento.
Eu poderia ter vivido
melhor esse tempo,
mas pronto, já se foi,
cá estou e é só.

Sempre em mim, todavia,
o cheiro, a feira,
a mulher e o fusca.


Publicado anteriormente a 22 de Maio de 2008, no blog Macarani Bahia.

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6 comentários sobre “A Cor da Saudade

  1. Murilo, é instigante esse revisitar a cidade natal através de acontecimentos corriqueiras e personagens do quotidiano. O poema acaba por ser um convite a conhecer esse universo. Assim como Anônimo, também gostei muito do poema.

    Ah… e o seu título – além de apontar e resumir a nostagia dos versos – é bastante inspirador. Parabéns!

    1. Muito obrigado, Cássio! E pensar que ele sobrevive, tantos anos depois de ser escrito. É sempre terapêutico irmos dentro de nós mesmos, nos perdermos nos nossos próprios labirintos. O titulo tem a ver com descoberta de chacras. Volte sempre! 😉

    1. Obrigado, Ana. Você sabe como sua companhia artística me é fundacional. Fico muito feliz ao vê-la por aqui. Ótimo retomarmos contato. E mais ainda que gosta dos poemas. Estou num projeto de música eletrônica, autoral, virando MC! Este poema comporá uma das faixas. Fui aos subterrâneos neste ‘processo’ de auto-aprendizagem musical. E estou bem. E você publica um blog? Eu me afastei do Facebook. Beijos.

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