Vagalume

Parei tudo que fazia e parti a escrever um poema.
Tal qual a música, capaz de calar as vozes boçais,
caberia à poesia negar os ritos e os termos científicos,
uma vez que ela lhes seria anterior e mais bela.

Para cumprir este ditame heróico, a mim supostamente outorgado,
abri o computador na sala de trabalho,
interrompendo o estudo dos colegas compenetrados
em suas reiteradas dúvidas sobre leituras herméticas.

Proclamei que havia encontrado um vagalume aflito,
que sairiam de mim jorros aromáticos de poesia.
Era, portanto, direito meu cortar o silêncio dominante
e interpor ao lugar a presumida superioridade d’uma ideia artística.

Contudo, antes mesmo de efetivar este intento,
sobre as cabeças cansadas dos estudiosos colegas,
voou pela janela o inseto precioso, apressado,
a rir da minha expressão atônita e envergonhada.

O poema recusou-se a trabalhar pela minha vingança.
Calou-me ante o riso sarcástico da plateia acadêmica.
“Deves tratar-me como tratas a dúvida, acarinhando-me,
jamais como se eu fosse um ente dúctil às tuas penas”.

Voou, como se dançasse, o poema orgulhoso.
Deixou-me a sentir velhas e novas fraquezas.

Voltaram às leituras, divertidos, os condiscípulos da etnologia.
Eu, perdido de tudo o que antes fazia, em frente à tela acesa e vaga, tremia.

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4 comentários sobre “Vagalume

  1. Murilo, gostei muito do poema. Há um movimento, um translado do leitor à cena. Consigo imaginar o (des)conforto dos académicos, principalmente em serem obrigados a desconectar-se um pouco que fosse dos seus livros e pensamentos por vezes herméticos e solitários. Tudo isso devido a um vagalume. E o bom, e mais importante, é que o poema emergiu. 😀

    1. Obrigado. Esta sala, que você conhece, é para nós submergirmos nas histórias das ciências que praticamos. As vezes, um ser iluminado mostra-de, feito uma libélula translúcida. Alguns de nós submergimos mais. Ou menos? Rsss imagine aquela figura esguia tendo o prazer de me humilhar?!

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