A nova moeda do império carlista

A estratégia escolhida pelo Democratas (DEM) em Salvador para a reeleição de ACM Neto como prefeito é um exemplo de como grandes narrativas biográficas são construídas durante uma campanha eleitoral, tendo em vista projetos político-partidários futuros.

ACM Neto vem sendo uma espécie da tábua de salvação para o DEM. Em 2010, quando o petismo protagonizava grandes vitórias eleitorais, no ápice dos bons resultados das políticas sociais e econômicas adotadas pelo governo de Lula, ACM Neto candidatou-se a deputado adotando a cor vermelha. Naquele ano, ACM Neto foi eleito com uma votação bem menor do que as de anos anteriores.

Dois anos depois, na eleição municipal, ACM Neto tornou-se prefeito da capital baiana. Sua gestão é emblemática de como esta grande cidade, jogada às traças por sucessivos governos municipais, deixou de usufruir em tempo das possibilidades de investimento público que ajudaram a melhorar a vida em outras metrópoles nordestinas. Em 2016, enfeitadas muitas praças e parte da orla e implantados os programas federais de atenção à saúde e à educação infantil – sem adotar os seus nomes de origem, ligados aos governos petistas -, a população de Salvador tem louvado a administração de Neto e apontado para uma esmagadora vitória no próximo dia 02 de outubro.

Contudo, a julgar pelos programas de televisão, como este, exibido no últimos dia 26 de Setembro, a campanha de 2016 tem um objetivo muito maior do que o de reeleger o neto de ACM, em Salvador. Trata-se, antes, da tentativa de refundação do carlismo enquanto regime personalista e messiânico.

Ao assistir ao programa, além da predominância da cor azul, da propaganda das suas realizações e do uso de criancas da rede municipal de ensino, o símbolo que mais salta aos olhos e denuncia aquela estratégia é o perfil silhueta do candidato, que figura como logomarca de sua campanha e dentro do qual aparece o número associado ao seu partido.

O número do partido é a informação mais valiosa numa campanha eleitoral brasileira. Por isto, há muitos jingles em que, em vez de letras emocionais e ufanistas, ouve-se apenas o número da coligação ser repetido à exaustão, ao ritmo do sucesso carnavalesco da altura. Ao posicionar o número dentro do perfil vazado, quer-se que outra imagem seja memorizada: a imagem lateral do seu rosto, lembrando, inevitavelmente, os perfis silhueta dos imperadores, cunhados nas moedas dos seus respectivos reinos.

Não posso afirmar que a inspiração dos seus ‘marketeiros’ tenha sido esta, porém a semiótica política não lhes deixaria justificar de outra forma, como não haveria razão historiográfica suficiente para explicar tal aventura. Isto, porque nos tempos de hegemonia carlista, o avô do atual prefeito soteropolitano era tido e tratado com um imperador.

Os seus poderes ilimitados sobre os recursos públicos, a sua ampla influência sobre as municipalidades e a sua associação com as elites econômicas local e nacional faziam dele uma espécie de super-homem político, um pai, ao qual estavam concedidas as licenças para fazer e acontecer, inclusive para roubar, uma vez que, diziam, ele roubava, mas fazia. Dos seus descendentes, o único que parecia seguir os seus passos e ter herdado o seu carisma foi o seu filho Luiz Eduardo, falecido precocemente.

A perda deste seu filho serviu para que todo o estado pudesse ver reafirmada a força soberana do patriarca. Uma estátua foi erguida em homenagem ao falecido, na avenida que dá acesso à cidade administrativa do estado; o aeroporto internacional de Salvador, cujo nome anterior celebrava o mito da independência da Bahia, ganhou o seu nome; um município no oeste do estado também foi batizado em homenagem ao príncipe morto, sem falar em bibliotecas, hospitais etc.

A Bahia, que sempre fora tratada pela dinastia Magalhães e seus associados como uma propriedade privada, passou, então, a ser publicamente marcada pelo seu sobrenome, por meio de uma verdadeira imposição da personagem Luiz Eduardo ao rol dos grandes homens da Bahia. Este político não teve tempo em vida de alçar voos que justificassem as homenagens. O seu nome passou a compor o cotidiano de milhões de baianos, apenas para que todos nós tivéssemos o privilégio de compartilhar do luto do velho ACM. Nada mais imperial do que isto.

acm_perfil
ACM, o avô.

Nada mesmo, muito menos esta silhueta do Neto: um jovem político, diga-se, que não demonstra ter herdado sequer um terço das competências do seu avô e do seu tio. O seu gestual e a sua voz foram talhados em oficinas de media trainning, para que ele possa agora aparecer na televisão como uma mistura de ator de novela com repórter de uma das suas emissoras de TV espalhadas pelo estado. Tudo nele soa calculado e artificial, exceto uma coisa: seu perfil, que lembra o rosto perfilado do avô. Como um código genético, esta semelhança o credencia a estar onde está, pleiteando o voto da gente simples.

É a afirmação da sua descendência que está por trás de sua escolha simbólica, que antecipa o início da campanha para governador, na qual ele, provavelmente, se apresentará como o enviado, o homem que, por direito, deverá recolocar no lugar de mando o sobrenome que uma dia comandou esta terra e que, em boa medida, ainda a comanda.

A confusão em que se encontram as populações pobres e periféricas, com o medo a lhes assombrar e a sensação de perderem o pouco que conseguiram, é terreno fértil para sebastianismos.

Quanto aos seus súditos, estes parecem ter esquecido como as coisas funcionavam há vinte anos, quando o falecido “Toninho Malvadeza” ainda reinava sem rivais nestas paragens. As plagas da fome, da miséria, do abandono e da perseguição mergulhavam o reino em tristeza, hipocrisia e cansaço, até que uma nova festa eleitoral recomeçava e moedas voavam dos palanques até os pobres, que lotavam, famintos e refenizados, os comícios, a entregarem as suas vidas a um império familiar que de imperial nada tinha, apesar da sua cavilosa certeza de que nasceu para reinar.

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