O Medo Recalcado

Cheguei ao Brasil há duas semanas, depois de três anos de ausência. Chamou-me a atenção a aparente normalidade na vida dos baianos, primeiro ‘povo’ que re-encontrei. Viajei a João Pessoa, na Paraíba, depois, estiquei a jornada até Natal, capital do Rio Grande do Norte. Em ‘Jampa’, as ruas estavam cheias de mensagens políticas, pichadas ao lado das incompreensíveis assinaturas e de um onipresentemente divertido “não estrua”, expressão que significa não desperdice, em bom nordestinês.

Entre os potiguares, a mesma aparência de normalidade, com o dia-a-dia a correr apressado. Risadas entremeavam as conversas que eu ouvia amiúde até que, no dia 09 de Agosto, eu e Cássio Serafim nos deparamos com uma manifestação promovida por centrais sindicais e organizações juvenis, componentes da Frente Brasil Popular, contra o golpe e a favor de novas eleições.

Com exceção das paredes pessoenses e da manifestação potiguar, intrigava-me aquela sensação de normalidade, que parecia esconder algo mais do que uma possível tristeza generalizada, atenuada, talvez, pela alteração da agenda dos veículos de comunicação, desde Maio tomados por cínico ufanismo. De volta a Salvador, resolvi testar a minha suspeita de que algo realmente não ia bem.

As impressões que trago a este texto são fruto de interações muito preliminares com cidadãos soteropolitanos, as quais serão somadas aos contatos que farei em Vitória da Conquista e em outros municípios, como parte de um trabalho de campo antropológico, razão de meu retorno temporário à Bahia.

A primeira destas conversas deu-se com um motorista de Uber. Aos 44 anos de idade, Fábio trabalhou em muitas funções até assumir a de motorista. Reside num bairro periférico e de classe trabalhadora baixa, desde que nasceu. Contou-me que pretende votar em ACM Neto em 2016, embora não tenha lhe dado o voto em 2012. Justificou a mudança de opinião com a sua percepção das melhorias que a cidade obteve desde o início da gestão DEMista.

Ao lhe perguntar sobre o impeachment, disse-me “sou totalmente contra”. Seu tom de voz alterou-se, tornando-se gradativamente raivoso. Entre um comentário e outro, Fábio perguntava-me sobre a minha profissão e sobre o teor de minha pesquisa. Na medida em que compreendia as razões de meu questionamento, liberava a raiva contida, vociferando contra “as autoridades”.

Para ele, são as autoridades que definem a conjuntura política. Diante delas, “o que o povo pode fazer?”. Citando seu pai, revelou sua crença de que “o povo mesmo não tem força, não pode fazer nada”, ainda que a situação não lhe seja favorável. Fábio disse sentir que a situação econômica piorou, “e muito”, nos últimos meses e que “vai ficar ainda pior”.

Perguntado por que as pessoas não se revoltam e tomam as ruas, ele me deu uma resposta incisiva e resignada, desta vez com o tom de voz, eu diria, triste: “as pessoas têm medo”. Medo do quê? “Medo da violência da polícia e da coisa virar pro lado delas e perderem o pouco que ainda têm”. Depois disto, voltou a discursar sobre a inutilidade da ação popular ante as decisões das “autoridades”.

Fábio não se lembra em quem votou para Deputado Estadual e Federal, ainda que não se esqueça do voto em Walter Pinheiro para o Senado, em Dilma Rousseff para a Presidente e em Rui Costa para governador, todos eles do Partido dos Trabalhadores. Eleitor fiel à urna, Fábio exercerá seu direito político este ano, desta vez para ajudar a reeleger ACM Neto que, segundo ele, vai ganhar “de lavada”.

No dia seguinte, re-encontrei Joana, empregada doméstica na residência de um casal de amigos. Joana trabalha para a família do marido há muitos anos, sendo que, desde que ele se casou, ela passou a servir ao jovem casal com exclusividade. Nesta casa de classe média, seus direitos laborais são respeitados e Joana nutre afeição por eles e lhes devota esmero em cada atividade diária. A relação ‘afetiva’ entre ela e o casal expressa a frágil e perversa ‘cordialidade’ que permeia a relação entre sujeitos economicamente desiguais no Brasil.

Joana tem 56 anos, dois filhos e um neto. Eles vivem numa comunidade carente, marcada pela violência da polícia militar e pelo tráfico de drogas. São inúmeros os seus relatos de truculência policial e de sucumbência da população aos bandidos locais. Apesar de a vida na comunidade onde reside não se ter alterado nos últimos anos, sua vida privada melhorou com as administrações petistas, tanto a federal como a estadual. Esta percepção faz de Joana uma eleitora de candidatos de esquerda, quando se trata de cargos para o Poder Executivo.

Assim que começamos a falar, ciente de meu interesse por assuntos políticos, Joana soltou um desabafo: “eu estou triste é com o que fizeram com minha Dilminha. Não tiveram respeito por ela, a bichinha foi humilhada. Ela não merecia isto!”. Continuou a expressar sua indignação, enquanto cuidava dos preparativos finais para o almoço, ao qual eu havia sido convidado. “Um absurdo”, “agora os pobres é que vão se lascar”. Perguntada sobre a situação econômica, foi enfática: “piorou tudo. Um pobre com muitos filhos vai poder comprar feijão a quinze reais e farinha a cinco? Claro que não!”.

Joana também está pessimista com o futuro. Entretanto, notei que sua fala, embora um tanto raivosa, parecia resignada. Lancei a mesma pergunta que fiz a Fábio, sobre o porquê de as pessoas não se revoltarem e tomarem as ruas, e a sua resposta impressionou-me pela coincidência em relação à do motorista: “o povo não vai para a rua porque tem medo.” Medo do quê? “Medo de receber porrada da polícia e de perder o que já tem”. Joana não se lembrou dos seus votos para legisladores, em 2012. Disse não se arrepender nos votos que deu a Dilma e a Rui Costa, mas está decidida “a votar nulo este ano”, revelou-me com a voz sensivelmente triste.

As falas de Fábio e de Joana, ainda que insuficientes, já me permitem refletir sobre as emoções populares como dispositivos propulsores ou inibidores da ação política. Antes do impeachment, discursos ‘antipetistas’ intransigentes revelavam a prevalência do ódio como sentimento definidor dos protestos que contaminaram os eleitores mais pobres identificados com as demandas vagas de parte das classes médias e altas. Tais discursos ajudavam a calar os que, como Joana e Fábio, não se ressentiam das escolhas políticas de 2012. Nestes dias de agosto, com o golpe à beira da sua consolidação, é o medo que vem definindo a performance pública dos cidadãos e cidadãs que, nas ruas, agem como se as suas vidas parecessem as mesmas, como se nada tivesse acontecendo.

Medo do quê?: esta ainda é uma pergunta válida. Para não correr o risco de me apressar em conclusões, teço duas hipóteses. O impeachment, pelo modo como ocorreu, é percebido por Joana e por Fábio como uma ação de violência institucional, das “autoridades”, sendo a violência policial a sua extensão visível e sensível, no cotidiano das classes pobres. Há uma percepção subjacente aos discursos de Joana e de Fábio de que contra as autoridades nada se pode fazer, numa recuperação, desta vez sem qualquer rastro de humor, da frase constantemente repetida nas eleições brasileiras, segundo a qual, ‘o pobre perde o valor depois de votar’.

Desta vez, claro está na decisão de Joana de anular o seu próximo voto a impressão de que este passou a valer pouco, ou nada. Por outro lado, a conversão de Fábio em eleitor ‘carlista’ revela a desconexão entre as suas decisões eleitorais, consoante as esferas federal e local. O fato de ACM Neto ser um dos entusiastas do “golpe” que Fábio despreza não o impede de lhe conceder um voto.

Interessante que Fábio admitiu não mais frequentar reuniões da Câmara de vereadores e desconhecer a existência e o funcionamento de conselhos gestores e de direitos. Porém, ele se queixou de não poder se aproximar de um prefeito, de um presidente ou de um governador para poder lhe oferecer uma opinião ou para fazer uma crítica à gestão, reiterando a sua noção de “autoridade” como sinônimo de indivíduo poderoso, inacessível, incontrolável e voluntarioso. Não há qualquer contradição entre esta queixa e a sua certeza do voto em ACM Neto. Trata-se de um motorista impressionado com as melhorias urbanas na Salvador que conhece bem. Por “melhorias” entenda-se asfalto nas ruas e avenidas e reformas de prédios e praças públicos.

Como se se tratasse de dois países distintos, Fábio manterá a sua decisão e, com ela, sem o saber, talvez, ajudará a fortalecer os defensores da ruptura democrática porque passa o Brasil. O poder do cimento e dos favores pessoais nunca deixou um prefeito sem votos. Medo e “obras”, juntos, são capazes de fazer durar o poder em contextos de enorme desigualdade social. Além do mais, as intervenções plutocratas em âmbito federal não são suficientes para estancar a política local, como se esta não andasse par e passo com aquela.

A outra hipótese que levanto merecerá cuidado analítico posterior: a violência policial como extensão das instituições estatais escancara a percepção de ambos os intervenientes de que o Brasil revive uma conjuntura em que a força policial assume o protagonismo das ações públicas de contenção popular. Em outras palavras, ambos parecem suspeitar que o Brasil democrático foi afastado junto com a Presidenta Dilma.

O medo é justificado e a incerteza os entristece. Joana e Fábio demonstram que, por mais que a normalidade pareça ocupar as ruas das cidades em que estive, o medo pode estar recalcado no interior de muitos dos indivíduos com os quais tenho cruzado nas últimas semanas. Este medo, pelo que me disseram aqueles dois soteropolitanos, gera mais medo e os impede de se manifestarem. Parafraseando o pai de Fábio, sou levado a entender que, para os homens e mulheres que dependem de seus salários mensais, sobra sempre a mão forte e determinada das autoridades, especialmente quando estas pretendem lhe retirar mais algum direito.

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5 comentários sobre “O Medo Recalcado

  1. Embora tenha sido esta a nossa primeira andança por alguns lugares do Nordeste, não deixaste de mirar o outro, o quotidiano. Gosto do teu olhar perspicaz. Parabéns por este texto e traze-nos outras leituras. Ser-nos-ão bem vindas e ajudar-nos-ão a entender um pouco o que está a acontecer no Brasil.

      1. Depois, fiquei pensando sobre que outros medos estão sendo recalcados e gerando recalques no quotidiano brasileiro. Seria algo interessante a debater se o recalque (ou recalcamento) são gerados pelo(s) medo(s).

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