O que matou Prince?

Ao contrário do que a sua imagem parecia demonstrar, Prince foi um artista genial hospedeiro de um cidadão de ideias conservadoras e confusas, especialmente – pasme-se -, no campo da sexualidade. Após a sua conversão às Testemunhas de Jeová, nos anos de 1990, as suas opiniões passaram a expressar o que há de mais atrasado quanto a este tema. Comentários homofóbicos foram constantes, até há pouco. O símbolo de certa irregularidade que veio a marcar a sua música a partir deste período foram, portanto, estas suas falas insidiosas e tristes.

Mais do que a crônica de uma rutura com a genialidade marcante da sua obra ao longo de mais de duas décadas, a conversão de Prince num cristão fundamentalista funciona como um marco de partida para um debate de que não podemos mais fugir. É que nesta reorientação religiosa estavam um espírito e uma mente atormentados pela forte adicção em opiáceos. Uma dependência química jamais alardeada e sequer comentada pelos fãs mais devotados é deveras estranha. Suponho a existência de redes comerciais de profissionais da Saúde a serviço de milionários dependentes de algum tipo de heroína.

Certas religiões, por outro lado, desempenham papéis relevantes nas vidas de individualidades atormentadas pelo desencontro entre as emoções e os desejos e os condicionamentos estritos a que estão submetidas. Eles sofrem com os traumas de infâncias e adolescências marcadas pela privação e pela violência.

É como se o Prince do palco não aceitasse existir como o Prince Rogers Nelson, quando deitava a sua cabeça sobre a almofada de dormir. Uma vida de drogas químicas recobertas pelo manto da legalidade, numa via de mão dupla hipócrita e irresponsável com religiosos. A paranoia homoerótica é então misturada a ideais de pureza espiritual. Obviamente, este tipo de conduta promove estragos tanto na obra como no próprio homem. Assim foi com Prince, infelizmente.

Sua música passou a habitar um limbo entre a ousadia de outrora e a vontade de parecer atual e decente, nos seus últimos álbuns. Soma-se a isto o fato de Prince haver protagonizado, desde o início dos 2000, uma campanha contra os meios de exposição de sua música pela internet, fazendo com que, inclusive, páginas geridas por fãs e seguidores fossem processadas por ele. Isto levou ao sumiço de sua obra das inúmeras comunidades de downloads e de todas as plataformas de exposição mediática virtuais, principalmente do youtube.

A partir de 1989, sua briga contra a gravadora Warner e a posterior proibição judicial de usar o seu próprio nome o fez patinar entre contratos para a distribuição e lançamentos independentes de uma profusão de álbuns esparsos. Aquela sua implicância com a internet fez o seu acervo anterior sumir do mercado de massas. Sequer a sua influência sobre a musicalidade de jovens artistas vinha sendo realçada como deveria pela imprensa especializada.

Este seu posicionamento ante a antiga e as novíssimas indústrias musicais é um verdadeiro libelo contra a exploração do trabalho artístico. Ele antecipou em dez anos os entraves que vieram a ocorrer entre artistas influentes e os serviços de streaming. Contudo, não se pode deixar de notar que esta disputa acabou por confirmar a suspeita de que a religiosidade que passou a professar teria lhe feito restringir-se demasiado, artisticamente. Aos olhos do seu público, Prince tornou-se num artista cuja obra trafegara entre a genialidade e a mediania. Um artista espetacular que não abria caminhos musicais, como antes, mas que se mantinha preocupado em aprimorar os mecanismos de se fazer dinheiro com a música, restringindo a sua circulação e questionando as regras de direito autoral internacionais.

As opiniões sexistas eram corolários desta nova atitude. Não que elas já não se deixassem antever aqui e ali, desde o início de sua carreira magistral. Estas peculiaridades, digamos assim, temperavam a sua obra com controvérsias equilibradas pela inegável superioridade de sua música. Ademais, esta superioridade flagrante, somada à sua musculatura, criava entre os fãs a certeza de se tratar de um artista imune a drogas, saudável, até porque, em suas letras, o uso de substâncias estava também envolto em algum preconceito.

Numa de suas obras primas, o álbum “Sign ‘O’ the Times”, de 1987, a música título insinuava que um jovem teria “em seis meses” partido do uso de maconha ao de heroína. Qual não foi a minha surpresa e a de tantos outros seus admiradores, ao descobrirmos que, afinal, Prince mesmo sofrera deste mal, a ponto de desaparecer…

A sua ida definitiva é um deprimente evento político relacionado à crescente influência de religiões cristãs fundamentalistas. Pela capacidade que têm de adulterar as perceções sobre os chamados “temas fraturantes”, estas igrejas funcionam como verdadeiros ímãs de personalidades obscurecidas em termos psiquiátricos, e não só. Elas cumprem uma função que ultrapassa a liberdade religiosa, potencializando problemas de saúde e de segurança públicas.

Se Prince não tivesse mergulhado numa religiosidade fundamentalista e anticientifica, conseguiria ultrapassar a sua adicção? Quantos destes males individuais mostram-se coletivos, pela ação nefasta de segmentos religiosos deste tipo? Em nome de quê eles ocupam lugar relevante nas memórias de tantos indivíduos espalhados pelo planeta? Serão eles também uns terroristas? Aterrorizo-me só de pensar. Multiplica-se-me a tristeza pela partida repentina de um artista tão adorável, que pode não ter tido tempo de se livrar das amarras morais que estancavam a sua impressionante criatividade.

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