12 de Maio de 2016

Estou num café estudando há algumas horas. Em dias como hoje, o isolamento num lugar estranho é melhor para eu me concentrar do que o ICS, na medida em que consigo não falar sobre o que me aflige com pessoas que me amam e que estão sinceramente preocupadas com o nosso Brasil.

Porém, hoje tem sido impossível isolar-me e, mesmo assim, os estudos terão que correr. É que não se fala de outra coisa aqui no café, a não ser o afastamento da Presidenta Dilma Rousseff.

Aqueles dois senhores ao fundo da imagem comentam o que nos aconteceu. Interrogam-se sobre o futuro do Brasil, lembram-se de amigos e parentes que vivem no país e que se perguntam o que poderá vir de um golpe em pleno 2016.

A certa altura, eles riram muito, lembrando-se da sessão da Câmara dos Deputados, dia 17 de abril. Depois, seriosos, comentaram sobre a Ditadura Militar que, segundo aqueles amigos e parentes, pode estar novamente à nossa espreita.

No meu caso, ouvir comentários como estes torna-se mais grave, devido ao meu trabalho de pesquisa. Ao tempo em que os livros que venho estudando me dão elementos para refletir sobre as memórias coletivas, eles me oferecem, por outro lado, razões para sentir ainda mais indignação e revolta.

Contrastados, os senhores e o livro de Cornetton, nesta tarde, despoletaram sentimentos ruins que se complementam e que aprofundam minha sensação de perda de uma coisa enorme: a irrestrita liberdade.

À medida em que passa o dia, convenço-me de que a democracia é, desde hoje, apenas uma memória, depois de tão pouco tempo a ser vivida coletivamente pelos brasileiros.

Se aqueles senhores me fossem próximos, eu lhes pediria para não rirem de nossa desgraça e que me permitissem afundar aos prantos no ombro que um deles gentilmente me oferecesse.

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Um comentário sobre “12 de Maio de 2016

  1. A situação é desoladora. Sinto que estou sendo perseguido na rua. Noutro dia, desconfiaram que eu não era quem dizia ser, mesmo apresentando o meu documento de identificação. Será que pensam que, por termos deputados corruptos, despreparados e dissimulados, temos de ser iguais? As coisas não são assim, mas uns parecem apegar-se a tais preconceitos para poderem exercer mais uma vez atitudes colonialistas. Isto acontece aqui e lá, por nós e por eles. É a impressão que tenho, às vezes. Quando iremos todos descolonizar-nos?

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