Existencialismo

Reconheço-me nos homens que me conhecem por dentro.

Ah, que piada infame existencialista.
Dita por mulher, arroubo feminista.

Belos monstros cavalheiros
tropeiros, ressurgidos das cinzas
da abjeta história sertaneja.

Houve quem, tinhoso, turrão,
não medira destreza.
Indivíduos com determinação
encheram-me de fúria lasciva.

Enquanto uns gatos pingados lá fora expeliam seus medos
e deixavam de gozar a vida, suas graças, seus defeitos,
eu, inundado pelo fluido quente de homens
a me lamberem as costas com a fome de tigres.

Lebres e javalis, patos e tigres.
Houve quem temesse minha carne.
Em contrapartida bandida, houve
quem a dilacerasse, terrorista,
para ma reconstruir em seguida.

Sem contar os cães amestrados.
Os cândidos mendigos fátuos, tolos.
Além de hordas de estranhos chatos
a me trazerem carrapatos.

Mesmo a estes imundos, mesmo aos fracos
pela disponibilidade e franqueza, sou grato
Embora prefira sempre os cheirosos,
os felizes de verdade, otimistas,
dos quais herdei sinceridade e pureza.

Com eles evitei limitação e frugalidade.
Invadido por olhares, por mãos e línguas,
sabores gravados na memória da pubis.
Visões plantadas no interior da íris.

Sou cada um deles, a cada momento.
Reconheço-me nos homens que me tocaram por dentro.

Ah, que piada infame, existencialista.
Dita por mulher, enlevo feminista.

 

Fotografia: Cássio Serafim

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