O Egoísta do Dia das Crianças

Eu costumo ser egoísta nos dias das crianças.

Penso nos meninos e meninas que sofrem, que morrem sob ondas violentas, pelos mares de um mundo que nunca lhes sorri. Sofro com elas, procuro descobrir como ajudá-las a, pelo menos, viverem. Se eu penso nisto todos os dias da vida, a cada 12 de outubro eu procuro refletir sobre elas ainda mais.

Isto não quer dizer que nos dias das crianças eu não esteja simpático e sorria às crianças contentes que passam por mim – sim, elas existem! Em tempos de facebook, fica evidente que, nos lares mais ou menos abastados das comunidades de que participo, meninos e meninas brincam, aprendem, comem bem, atravessam sem dificuldades infâncias invejáveis (na medida da inveja que nos querem incutir seus pais). Gosto de vê-las assim, seguras e amadas todos os dias da vida, todavia no 12 de outubro gosto de assistir a isto um pouco mais. Algumas causam-me certo desconforto, pela excessiva exposição.

Porém, como eu dizia, neste dia de outubro que o capitalismo convencionou, no Brasil, instituir como “o dia das crianças”, eu torno-me num bruto egocêntrico: passo a rever sobretudo a criança que eu fui e que pretendo jamais deixar de ser. É um dia de dançar com as minhas memórias. Dizer a verdade a mim mesmo.

Como está a criança que sou eu, nesta noite de segunda-feira de 2015?

Estará saudável, 40 anos depois? Estará alimentada, brincando em torno dos pés de ciriguela dos quintais? Terá descoberto o amor e vivido novas emoções, e agora brinca em volta de outras árvores, banha-se n’outros Manjeronas, abraça-se a novos amigos?

Ou, pelo contrário, dói-lhe o corpo, depois de uma surra desmedida e injusta?
Algum policial a terá abatido, ao vê-la correr pela vizinhança de sua comunidade humilde?
Será que ela chora a fome, o descaso, o abandono e a humilhação?
Ela teve que deixar para trás o lugar onde nasceu, porque choviam bombas e petardos sobre a sua casa?
Será que ela sobreviverá a um mundo que não lhe quer bem, ou já terá falecido numa praia distante, sem conhecer, ao menos por um momento, o lado bom da vida?

 

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2 comentários sobre “O Egoísta do Dia das Crianças

  1. Além do fato de que crianças que até então não se alimentavam bem, seus pais, ao conseguirem levar alimentos para casa, terem seu poder de compra aumentado, passam a levar alimentos com calorias vazias, nutricionalmente com pouquíssimo valor, porque eles sofrem a influência maciça dos meios de comunicação para os comprarem. Babás eletrônicas fazem a cabeça de menores em fase de desenvolvimento em todos os campos para que eles consumam desenfreadamente, inclusive alimentos nutricionalmente de pouco valor, o que pode comprometer seriamente a sua saúde a médio ou a longo prazo, vide a epidemia de obesidade infantil. Há que se regulamentar, especificamente no Brasil, a veiculação de certos produtos nos meios de comunicação para que eles não tenham influência negativa sobre a saúde das nossas crianças.

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