A Oficial Mentruada

Eu poderia contar como ela nasceu e mencionar alguns poucos eventos relevantes em sua curtíssima vida, todavia nada se compara à narração de seus últimos dias. Intensos dias que reconfiguraram seu perfil militar, graças ao insuperável poder da nossa humanidade essencial. Barulhentas horas, decisivos minutos submetidos aos ditames da natureza impiedosa. Nada que vivera em sua vida civil se compararia ao lugar em que ela estava quando morreu.

Foi durante a única guerra em que servira. Virginia era uma mulher de 21 anos. Treinaram-na para a pilotagem de tanques sofisticados. Em pleno campo de batalha, ela dividia acampamento com mais vinte e cinco homens, nos dias em que o conflito atingira o seu ápice. Sentia falta de companhia feminina, principalmente agora que seu fluxo menstrual estava novamente às portas e o pelotão encontrava-se isolado no deserto vastíssimo.

A oficial, ainda que esbelta, não era bela. Tampouco despertava a curiosidade dos demais soldados, acima de tudo extenuados com o trabalho na frente de batalha. Resignada e deslocada em meio a tantos homens que decerto não aceitariam bem sua guerra hormonal, ela ensimesmou-se, como se mergulhasse nos areais circundantes. Com isto, ela acreditava preparar-se para conseguir aliar seus hormônios aos afazeres de guerrilheira oficial.

Uma descoberta veio a lhe encher de desconforto: havia esquecido na base o seu pacote de absorventes. Sem água para se banhar, deu-se conta de que não seriam fáceis os dias seguintes. Rumo ao ataque em Basra, impetuosa, pensava em como superar esse problema. O sangue já escapava de suas entranhas e ela não conseguia disfarçar sua inquietação, seu medo de exalar mau cheiro e não ser compreendida pelos colegas masculinos. Nervosa, logo começou a imaginar o pior, movida pelo medo de que feras esfomeadas viessem a atormentá-la, como se no deserto outras feras ali existissem, além daqueles soldados no tanque de guerra que ela dirigia. O ambiente fechado aumentava sua ansiedade. Entrou em pânico.

Lutou avidamente na conquista da periferia de Basra, orientando sua ansiedade à ação bélica. Resultado da operação: oito mulheres e cinco crianças feitas prisioneiras. Estas, com seu choro inocente, enchiam-na de um pavor tão indescritível que chegou a chorar também, como se estivesse em seu quarto no Brooklin. Todavia, estava entre as ruínas de uma cidade invadida. Resolveu caminhar por entre os prisioneiros.

Aproximou-se do grupo de duas mulheres com duas crianças pequenas, vigiadas por quatro dos seus colegas. De repente, o gesto de uma das senhoras a comoveu a ponto de trair a si própria: interrompendo seu choro ofereceu à oficial um trapo que rasgara da própria roupa, como que sentindo no vento forte o cheiro que as igualava. O trapo, entendeu logo, serviria para lhe amparar seu sangue de mulher. Recebeu o pano e respondeu, envergonhada: “thank you”. A outra, por sua vez, abraçou-se com uma menina, talvez sua filha ou neta, e voltou a chorar sonoramente. A menina fitava a soldada.

A noite passou e ela observava, de dentro do tanque, aquelas pessoas submetidas a uma invencível tempestade de areia noturna. Chorando, resolveu tomar uma atitude: pegou sua granada e, num instante, libertou os prisioneiros, deferindo o armamento contra o local onde se aglomeravam seus companheiros, matando dez deles e atordoando os demais. Correu a libertar o bando de mulheres e crianças que gritavam, como se pedissem socorro ao vento bravio. Liderou-as pelo deserto adentro.

Os jornais do ocidente repetiam uma versão oficial da notícia, segundo a qual tudo não passara de um ataque de voluntário árabe suicida. Isto para ela, agora, pouco importava. Dois dias se sucederam e serviram para aproximá-la da comunidade que libertara e que, entretanto, ainda lhe via com desconfiança. Estavam agora escondidos numa pequena aldeia perdida na paisagem arenosa. Ela ofereceu-lhes uma derradeira ideia audaciosa: um plano de como atravessarem a fronteira. Depois disso, seguiria seu caminho em fuga perene.

Com um veículo branco entregue por um homem após grande discussão entre ele e duas das mulheres, planejou guiar discretamente seus antigos prisioneiros pelo cerco de soldados aliados. Continuava a contar com a ajuda das mulheres do grupo para se manter limpa e isto a enterneceu a ponto de sentir-se profundamente solidária com o povo contra o qual fora treinada para atacar. Embarcou com elas no automóvel, rumo ao norte, em busca de terras mais calmas. Estava confusa, ainda menstruada, porém se sentia estranhamente feliz. Um homem dirigia o veículo, mantinha o olhar na pista escassa, concentradamente. Atrás deles, poeira dançava. A oficial, sentada entre os passageiros, com um véu a camuflá-la, apertava seu ventre para atenuar o nervosismo.

O cerco foi visto ao longe por todos no carro. cerca de dez guardas de fronteira, em sua maioria soldados norte-americanos, com uns poucos locais, pertencentes ao grupo adversário dos pobres coitados que seguiam com ela de maneira tão arriscada. Com gestos e gritos, ordenava ao motorista para que não parasse o carro. Adiante, os soldados exibiam suas armas, diziam “stop”, enquanto ela, dentro do carro, gritava “run”. O motorista obedeceu à ordem da desertora, as mulheres e crianças cantavam alto, rezavam talvez. Ao passar pelo posto oficial, uma rajada de balas de fuzil atravessou quase todos dentro do veículo. A mulher ao seu lado da teve a cabeça arrombada. Experiente, dobrou-se de forma a ser das poucas a sobreviverem. Por reflexo, fez com que o carro virasse uma vez, sem capotar. A oficial caiu sobre uma das mulheres que morrera com os olhos assustados, abertos. A música dera lugar aos gritos até somente se ouvirem tiros e, depois, os passos e as vozes dos oficiais que se aproximavam do carro. Ela, brutalmente machucada, foi arrastada pelos cabelos e espancada no acampamento. Enquanto era levada, ainda viu um soldado atirar na cabeça da mulher que a ajudara com o trapo dias antes. Além desta, duas crianças morreram impiedosamente.

Os noticiários anunciaram a barbaridade, sem saber que uma oficial norte-americana coordenara a fuga. No acampamento, ela foi morta e seu corpo exposto como traidora. O mundo jamais saberia da verdade sobre o seu triste fim. Verdades nunca são bem vindas em tempos de guerra. Quando a razão para justificar os impérios falta por completo, a mentira ajuda a conformar os mitos de vitórias e conquistas. A motivação da oficial, as mulheres mortas levaram consigo. Passados dois meses, a sua família recebeu uma carta, com a notícia de que ela havia morrido num ataque a bomba, tendo seu corpo incinerado e perdido para sempre. Junto com a carta, um diploma, que condecorava postumamente Virginia Lewin como heroína de guerra, prestadora de honoráveis serviços à nação.

Murilo Guimarães
02 de abril de 2003.

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Um comentário sobre “A Oficial Mentruada

  1. Gostei bastante deste conto. Pôs-me a pensar em possíveis razões para a construção de solidariedade entre sujeitos (representantes) subalternos. Entretanto, se pensarmos na posição de poder ocupada pela soldada, há aí uma hierarquia de subalternidades, algumas das quais engendradas e privilegiadas por certos esquemas de poder. A prova disso é a carta e a condecoração que a família, no final da história, detém.

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