O Livro

Versão atualizada de um conto escrito por volta de 1990.

Toda a verdade e toda a mentira, tudo está nos livros. Toda a ciência, todas as palavras dos mestres. Nada falta por entre as letras. Nada se deixa escapar das páginas trancadas, fechadas, depois que um texto acaba. Quando alguma nova informação é encontrada ou inventada, corre aos livros e nele jaz resignada. Um dia, poderá ser desmentida ou confirmada. Jamais, entretanto, será apagada. 

Ah, estranho ofício, ócio difundido entre as gerações. Poetas enterrados sob escombros das palavras das quais foram escravos durante toda a vida. Médicos, operários, donas de casas cheias, ninguém escapa ao chamado. Seja uma cartilha seja uma carta, em qualquer coisa um livro se faz, como na tarde em que aquela mãe levou o casal de filhos pequenos para passear no zoológico da cidade.

A tarde fazia-se limpa, o céu resplandecia fielmente a inocência das crianças fascinadas diante das jaulas trancadas. Todos estavam entregues à imitação da selva primitiva, indiferentes às grades que separavam os que eram e os que não eram humanos. Todos ali se tornaram micróbios de um mesmo organismo vivo, dotado de uma mansidão tão morna quanto a tarde de domingo em que esta estória se deixa inventar. Até o momento em que as duas crianças viram o leão e a leoa.

Na jaula enorme e mal cheirosa,estes animais gozavam do desconhecimento da suas verdades íntimas. Presos ali, dependiam dos olhares curiosos para se fazerem existir e compreender. Para serem lidos, aqueles dois gatos magníficos fingiam-se santos e dóceis. Não havia quem não quisesse juntar-se a eles. Como se conseguissem comunicar um estranho chamado, surdo, mudo, feito apenas de olhares e de hálito de leão enjaulado.

Para as nossas crianças, um casalzinho formado de dois pequenos e inquietos seres acompanhados da progenitora, os leões eram um mistério muito maior do que os macacos ou as araras. Pararam diante da grade e puseram-se a contempla-los. A mãe saiu para comprar algo para beber e ensinou-os a não se aproximarem dos leões, “que são perigosos e comem gente”. Os dois sequer sinalizaram em resposta, de tão dispostos que estavam a continuar a admirar os felinos.

Belos versos ecoavam, formavam o silêncio crepuscular. Poesia esquisita, imemorável romance, fórmula hipnótica. Como queriam ultrapassar toda a cidade agarrados à juba e ao pescoço das feras! Seriam heróis, quanta liberdade haveria. Nenhuma das outras crianças que passavam por ali pareciam entregar-se tanto. As nossas duas, todavia, pareciam conversar com aqueles imponentes e esmorecidos animais, a lerem ou a inventarem qualquer preciosa informação através dos ferros da grade. Aproximaram-se mais. De repente, o tratador apareceu no caminho entre eles e a porta da jaula, com a chave a rodar no dedo indicador da mão direita. Os jovens entreolharam-se. Criara-se a oportunidade. Foi num relance que tudo aconteceu.

A ágil menina correu por trás do tratador, roubou-lhe a chave, entregou-a ao irmão que tratou de abrir a porta da jaula. Tentaram agarrar-se às costas dos bichos, mas a leoa impediu-os com um leve toque da sua pata dianteira. “Traição”.

Tolas crianças, vestidas para um passeio no parque, aprenderam nada ainda sobre a vida. Elas sequer conheciam um deus para gritarem em seu nome uma palavra que fosse. A mãe adentra a jaula, numa tentativa enlouquecida de salvar os filhos. Sem um deus para dizer qualquer palavra, as crianças assistiram ao leão derrubar a mulher, para facilitar o serviço da sua fêmea faminta. O zoológico inteiro corria. O tratador, atônito, apenas gritava.

Ninguém, além das crianças, viu a mulher dilacerada. Estranhamente, os felinos ignoravam as suas presenças durante o festim. Diante do corpo, a comerem-no vorazmente, estavam os dois enormes gatos. Os irmãos aproximaram-se para ver… O quê?

Os dois bichos olhavam-nas como que arrependidos, ou talvez somente preparavam outra tática e agora seria a vez dos dois pequenos. Estes já não compreendiam o que acontecia, desde que foram tão mal interpretados. Afinal, não fora esse o pedido que eles fizeram às feras. Ou terá sido esta a ordem? Sendo assim, os leões agiram de acordo com o que a sua inteligência superior e o seu olhar sobrehumano conseguiram interpretar. Quem dera as ordens a quem? Que poeta consegue deixar de ser a si mesmo, no momento em que compõe a sua sinfonia encrustada de palavras híbridas de amor e de descrença?

A leoa não parava de comer um só instante e o seu macho cumpria com esforço o seu dever de não fugir. N’outro relance, uma saraivada de tiros derrubou os animais. As crianças, somente então, puseram-se a chorar, caíram sentadas. Duas mulheres vieram e levaram-nas para longe de tudo o que, para elas, de agora em diante, seria a mais inesquecível e inexplicável memória. Elas, desde então, falariam a língua dos felinos e nada mais em suas vidas seria como antes. Estavam irrevogavelmente sós. Tudo invertera-se, até a tarde já era noite e, dentro das horas, vivo e latente, o cheiro podre e envolvente da bosta e da baba dos leões libertos, matadores e mortos.

A ordem fora esta mesma, tão destruidora? Talvez o tempo lhes responda a verdade e traga-lhes de volta as palavras subitamente estraçalhadas, como quando brincavam de modelar massinha na escola e, num piscar de olhos, a massa virava um boi, um humano, uma bola. Suas pequenas mãos foram envenenadas. Cheiravam a ferro enferrujado e a juba de leão. Esta massa fúnebre viria açoitaria as noites e assombrar as suas vistas eternamente infantis. “A nossa mãe era tão boa!”, diriam pelos anos seguintes.

Quem controla o significado de uma palavra solta? Quem sabe o verdadeiro conteúdo do que foi estirado nas páginas de qualquer livro? Que dentes e que patas esconde cada sílaba? Que poeta quis, que poeta sabe como evitar a violência escondida nas entrelinhas de seus versos? 

Um enorme carvalho fincado no chão. Somos mais nada depois que fechamos o livro. Sonho pueril e negado de atravessarmos a cidade, agarrados nos dorsos firmes do rei e da rainha de uma selva de mentira, construída bem diante de nossos olhos, agora marcados pela imagem de um corpo de mulher aberto em profundas gretas.

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Um comentário sobre “O Livro

  1. Que campos semânticos poderão ser acionados por quaisquer palavras escritas, proferidas ou somente pensadas? Os efeitos de sentido de um livro poderão ser vários. Os efeitos poderão ser inesperados, inclusivamente fúnebres. Pobres pequenos! Agora, órfãos. Parabéns pelo conto, Murilo!

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