Heterogeneidade

A marcha de trabalhadores sindicalizados e comunistas passou por ruas estreitas e desaguou na vasta praça do Giraldo, onde turistas nórdicos exibiam suas caras carrancudas. Ao contrário dos chineses, os nórdicos não traziam grandes máquinas fotográficas, a desdenharem daquilo que viam, como se os seus pequenos equipamentos descartáveis fossem suficientes para conter os cenários antigos e monumentais de Évora. Eles passavam pelas pessoas vestidas de vermelho e pareciam rir delas, ao contrário dos brasileiros e dos franceses, mais interessados em quaisquer sinais de festa, loucos para sorrirem e dançarem e, com a dança, fazerem valer os milhares de euros investidos no ‘turismo cultural’.

Os restaurantes da Praça tampouco desmontaram suas esplanadas insidiosas sobre o espaço público. Empregados circulavam com copos de vinho, bolos e xícaras de café expresso, reparando de soslaio a massa de sindicalistas a gritar palavras de ordem contra a opressão do governo neoliberal. Eu duvido que eles sentissem simpatia pelos congêneres em luta, talvez porque, neste mundo ultra capitalista, aquelas bandejas implicassem a manutenção de suas vidas inglórias. Cercarem-se de camaradas indignados não viria a ser estratégia tão interessante quanto parece, tendo em vista a precariedade de seus empregos.

Os trabalhadores seguiam em protesto, no seu fluxo desconcertante, observados em silêncio e sem admiração pelos turistas ensimesmados. Os nórdicos riam, os chineses fotografavam, brasileiros e franceses buscavam compreender as palavras de ordem e falavam entre si. O pequeno rio de gente revoltada atravessava a praça, sem se misturar aos insípidos transeuntes estrangeiros. Tornavam-se, aos olhos destes, mais um elemento pitoresco da paisagem.

Indiferentes às lutas dos oprimidos, confortáveis na ilusão do gozo de suas férias, como se estas os livrassem das mazelas que acometem os comunistas de Évora, os turistas ajudavam a desenhar este mundo de diferenças verticais, na medida em que sorriam da vida enquanto esta seguia a lhes arrombar pelas goelas a baixo.

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