A Solidão do Início

O início de um trabalho de campo, eu já o esperava, pode ser um pungente e solitário exercício de sobrevivência. Estar num lugar em que você ainda é um estranho, buscando meios de se integrar a uma comunidade formada séculos antes da sua chegada, são tarefas vividas com algum aperto no estômago.

Uma primeira atividade etnográfica, para mim, que falo a mesma língua dos meus possíveis intervenientes do trabalho de pesquisa, tem a ver com conseguir uma moradia. No caso, um quarto.

Évora é uma cidade repleta de casas antigas adaptadas para a residência de cinco, seis pessoas, sejam turistas ou estudantes. Muitas estas casas, apesar de lindas por fora, transformaram-se em labirintos de quartos, cozinhas improvisadas e banheiros profusamente utilizados, a despeito do alto preço a se pagar por um alojamento. Évora é cara como Lisboa.

Na maioria das vezes, estas residências erguidas há séculos são ocupadas por jovens com cerca de 20 anos, em suas primeiras experiências fora de casa. Como é óbvio, isto implica a extravagância dos sentidos, o uso exagerado da voz, das mãos e o relaxamento de regras basilares de convivência. Nada demais, digo eu, que já fui um desses jovens. Os desdobramentos da tarde mostraram-me, entretanto, que eu poderia me manter afastado de quartos assim.

A estadia no campo seria insuportável, caso ocorressem, desde o inicio, situações que indicassem a indisposição da comunidade para receber um olhar curioso, uma fala mansa, sedutora, mais dois ouvidos interessados em cada vírgula que o interveniente venha a proferir, mesmo numa conversa casual.

Um antropólogo acredita que os saberes elaborados a partir da compreensão de um pequeno mundo permitem-no conhecer melhor os dramas dos vários outros mundos que compõem o tempo em que ele vive. Porém, este conhecimento somente se completará se houver a adesão do “outro”. Dizem os mais experientes que, por vezes, esta empatia demora a ocorrer. Ainda bem que comigo o sorriso e a amabilidade têm andado lado a lado com a rudeza.

Hoje à tarde, numa dessas casas frias e labirínticas, ouvi um “bem vindo” amistoso de um homem de minha idade que me mostrava um dos seus quartos. Isto, horas depois de haver conhecido um senhor septuagenário, que se dispôs a ‘ajeitar’ um quarto em sua propriedade para que eu pudesse ter um lugar tranquilo para os estudos.

Não o conhecia antes de o ver à janela pela primeira vez. Cheguei à hospedaria pela inocente indicação de um estudante espanhol que me fez o favor de o fazer, em frente ao templo romano.

Foi um achado! Trata-se de uma enorme casa com quase (ou mais) de 500 anos de existência, transformada em hospedaria para “Turismo de Habitação”. As pedras das escadas, maciças, são a prova da idade do imóvel. A família daquele senhor possui a residência há duzentos anos e por lá, atualmente, hospedam-se turistas ávidos por uma qualquer ‘autenticidade’.

Sentir a disponibilidade deste homem, ouvir algumas de suas memórias e reencontra-lo casualmente à porta do supermercado mais tarde, foram como pequenos gestos ‘cósmicos’ emanados pela cidade que durantes algumas horas disse-me: “começa!”.

Ao fim do dia, nova surpresa: a secretária da Universidade de Évora levou-me uma lista com restaurantes baratos. Estes nomes têm-me dupla serventia: além de me fazerem economizar, a minha frequência a eles facilitará sobremaneira o meu contato com os homens e mulheres eborenses.

Escolhi um deles e fui tomar uma sopa. Ao entrar, encontrei um homem ao balcão, bebendo o que parecia ser um aguardente. Junto comigo entrou um outro ‘velhote’ que, logo eu soube, preferia sopas de tomates com bacalhau ao invés de carne de porco.

Este senhor andou até o fundo do pequeno salão, encontrou o dono do lugar, apontou-lhe uma cadeira e lhe perguntou se poderia sentar-se nela. Ouvi a resposta, direta e educada, consentindo que o cliente se sentasse. Eu, por minha vez, incauto nos procedimentos e etiquetas propícias, escolhi aleatoriamente uma cadeira e me sentei, não sem antes desejar uma boa noite aos presentes. Assim que despojei a mochila e a garrafa d’água no chão ao lado da cadeira, surgiu um homem de cerca de cinquenta anos, bochechas pálidas, com a boca rija, taciturno e diferente do que eu esperava ser um dono de restaurante. Com uma rudeza que não lhe impedia de ser igualmente direto e claro, disse-me, mais ou menos assim, “nesta aí, não!”

Eu, já bastante familiarizado com este ‘gênio’ português, perguntei-lhe, com seriedade: onde, então?, no que ele respondeu: “escolha uma daquelas ali”. Sentei-me finalmente atrás do senhor aficionado por bacalhaus, tomei a deliciosa sopa, ouvindo a conversa do proprietário com esse cliente, levantei-me, paguei e ouvi um “obrigado”, curto e um pouco mais aberto, do dono do restaurante. Sua mulher, ao sair da cozinha, sorriu para mim e me desejou boa noite. Ao deixar o lugar, despedi-me sonoramente e ouvi um uníssono “boa noite”.

Na rua, eu sorri, satisfeito. Havia começado a entrar no âmago da cidade, havia passado no teste, ao evitar julgar o dono do restaurante por sua rudeza. Ao invés disso, eu o compreendi e deixei que ele realçasse o seu território e que demarcasse ‘o meu lugar’ dentro dele. Como faria com qualquer outro cliente, assim como muitos dos seus conterrâneos farão comigo, ao longo de todo o trabalho de campo. Começava a minha etnografia em Évora.

Já nem me importa morar com jovens de vinte anos, ainda que eu espere poder realmente compartilhar do meio milênio de história da hospedaria daquele simpático senhor. Todavia, eu sei que boa parte do meu trabalho se passará naquele restaurante e que, provavelmente, ao final da etapa de pesquisa empírica, durante as eleições, terei boas horas de entrevistas transcritas, nas quais de certo ouvirei a voz grave e eficiente do homem do restaurante. Espero que ouça também seu riso.

A Porta em Évora
Évora mostra-me uma de suas portas de entrada.

Vale mais sentir o caminho sob os pés e entender a tal solidão inicial como uma passagem para o coração de um pequeno ‘espaço’, o qual, quem sabe, revelará-se a mim e a você sobre o meu, o seu e o mundo deles mesmos, eborenses. Riquezas que, desde agora, são parte de minha vida e merecedoras de atenção e cuidados. Eles serão, antes de tudo, meus mestres.

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