Perdição

“Tinha uma conta com vinte e um mil euros e agora está sem nada; perdeu tudo!”, disse a senhora de cabelos oleosos e casaco preto, ao pé do balcão da cafeteria Império. O ‘empregado de balcão’, homem miúdo, cinquentenário, com bigodes e careca, mantinha a conversa acesa, a demonstrar que estava a par do problema da personagem incógnita, “Passar o dia inteiro na net a jogar, isso não pode resultar bem”. “Meu café é cheio e fraquinho, ouviste bem o que eu disse?”, o empregado optou por ignorar a observação raivosa da mulher que no entanto logo voltou ao estado melancólico anterior, “como eles podem ter os dados da sua conta, será que ela lhos deu?”, não pude reparar em sua expressão ao se questionar sobre se a sua conhecida poderia ter sido roubada ao se entregar ao vício em jogos de azar. O empregado, ao trazer o café da senhora e o meu, respondeu-lhe, “ninguém nos faz nada de mau, a não ser que o deixemos”. A mulher idosa mexia o café com ar entristecido, quando olhou à bandeja ao seu lado, onde pousavam uma jarra com água gratuita e copos limpos, pegou um destes e perguntou, com ar absorto e voz frágil, “as pessoas que frequentam este sítio desde meninas não têm direito de levar um desses para casa? Tão bonitos!”.

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