Engano

Num autocarro que atravessava a Estefânia, uma senhora com prováveis oitenta anos de idade apressou-se para ajudar uma mãe, provavelmente descendente da Guine-Bissau, por acreditar que o filho desta poderia se machucar com o cordão da touquinha que o protegia do frio. 
Ao perceber que o pequeno garoto havia conseguido sozinho e habilmente se desvencilhar da roupa, a senhora voltou ao seu acento à minha frente e falou, com a expressão de quem confirma uma descoberta libertadora, “Somos todos iguais!”. Aproximando-se de mim, falando mais baixo, completou, “na minha infância, diziam-nos que os africanos eram selvagens, mas não! Faltava-lhes…” Ao girar as mãos em direção à janela, referia-se à Lisboa vespertina que passava por nós.
Não mais uma mulher racista, talvez ela refletisse assim sobre si própria, acometia-lhe agora a enganosa impressão de que aquela criança terá na vida oportunidades equivalentes às que terão seus netos nascidos na península ibérica.
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