Cativeiro

Dizia o jornal que ela foi resgatada por um padre no outono passado, quase trinta anos após ser jogada num cativeiro pelos próprios pais, “sob condições infra-humanas”, numa região remota do centro de Portugal. Dizia também que a ‘Seguridade Social’ do país sabia de sua situação há pelo menos oito anos, sem contudo obter da mãe autorização para retirá-la de lá, tendo a família, inclusive, “fugido” para uma área ainda mais isolada um ano depois de ser descoberta, vindo a habitar um casebre ainda mais miserável que aquele em que viviam anteriormente. A mulher, atualmente com cerca de quarenta anos, passava os dias num cômodo com duas únicas mobílias: uma cama de cimento forrada por um plástico e um banco, no qual ela se sentava durante as horas diurnas, com o peito recostado sobre as pernas e a cabeça entre os joelhos, hábito que lhe causou um dano irreparável à coluna vertebral. Foi resgatada com hematomas na cabeça, mas sem sinais de violência sexual, ressaltava o artigo. Ela não sabe articular frases inteiras nem comer com talheres e costuma cantarolar trechos de cantigas que aprendera na escola, entre os cinco e os dez anos, quando ainda era livre. Tem os dentes “destruídos”, segundo a reportagem, e seu resgate só foi possível porque a mãe havia sofrido um derrame cerebral que lhe prostrou, e o pai, cansado aos 74 anos, decidiu deixar que as técnicas sociais lhe levassem a filha encarcerada, deixando consigo, entretanto, uma outra filha, de quarenta e oito anos, acometida por um distúrbio cognitivo congênito. Pelo estado deplorável, não se sabe se a mulher resgatada também precisa de cuidados psiquiátricos especiais, além do carinho e da atenção dos profissionais do centro social onde ela agora está, uma vez que ela já atende quando lhe chamam pelo nome, consegue levar a comida até a boca e anda pelo abrigo, embora tenha demorado semanas até se reacostumar com os raios solares que encontraram novamente a sua face, décadas depois de a terem tocado pela última vez.

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