Comunicação

Eram muitas as pessoas ao telefone pela estação do Rossio, que resolvi retirar os fones de ouvido. Cada uma agia como se estivesse sozinhas num cubículo. Que mundos comunicavam-se diante de mim. Resolvi tentar escuta-las. Um jovem homem usava terno e caminhava enquanto falava, à tiracolo uma bolsa no formato de um computador portátil, “conseguirias dizer por que foste tão desatenta? Não me dás a chance de ser teu amigo, nem queres saber. A tua indelicadeza surpreende-me. Poderias ter-me dito o que quisesses mas agora o que disseres poderá ser pior que teu silêncio”. Uma adolescente taciturna, a caminhar um pouco mais atrás que um grupeto de amigas alheias ao seu telefonema, enquanto passava à minha frente e sem parecer me notar, “para que serve isto?, eu não consigo perceber, eu fico tonta com isso tudo, não acho piada”. Um belo homem cinquentenário, caucasiano e finamente vestido encostou-se à parede atrás de mim, sem portar bolsa ou mochila, após conferir as horas, com a voz grave, empostada, “vi os astros e eles mo disseram – eu o confirmo até em tribunal, se for preciso”. O trem repentinamente irrompeu pela plataforma e eu, que já não conseguia mais ouvir muita coisa do ambiente, voltei ao Itamar Assumpção.

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