Firmeza

Uma mulher idosa portuguesa entrou no ônibus, no ponto do Largo do Calvário. Emergia, cansada, da noite fria. Pareceu-me mal agasalhada. Levava duas bolsas grandes, repletas do que talvez fossem papéis e pedaços de panos. As bolsas não pareciam pesadas. Levaria ela também um cobertor? Mantinha-se atenta e firme, sem sequer cambalear ante os solavancos do veículo. Falava sozinha. Usava o cabelo amarrado, com um pequeno coque no alto da cabeça; não tinha dentes na boca. Numa das sacolas, ia um guarda chuva azul escuro espetado, com a ponta metálica para cima. Sentou-se finalmente numa cadeira ao lado da minha. Seguiu o trajeto a olhar pela janela e a estourar uma tira de plástico bolha retirada da bolsa onde levava o guarda chuva. O pipocar das pequenas cápsulas de ar formavam um som contínuo, agudo, que cobria sua voz rouca e ágil, que parecia comentar o que via pela janela. Eu não conseguia entender o que ela dizia. Separamo-nos em frente à estação Cais do Sodré, onde eu desembarquei.

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