Fúnebre

Um homem jazia fechado num saco mortuário branco, em frente à câmara de Lisboa. Seu cadáver era velado por uma idosa que, entretanto, deixou-o, provavelmente após lhe oferecer uma prece. Supus que o defunto estava à espera de quem o levasse dali, que ele era um velhote querido e que seu passamento fora rápido. Seria aquela senhora sua viúva? Um policial, posicionado a cerca de dois metros de sua cabeça sem vida, vigiava-o. A maioria dos transeuntes ignoravam sua presença e apenas um homem interpelou o policial sobre a estranha situação. Por que não nos prostramos em torno dele e lhe dedicamos minutos de nossas dúvidas e de nossos votos? A indiferença parecia ser a regra e eu quis crer que sua vida tenha sido, pelo contrário, repleta de pessoas que o amassem, solidárias com suas dores e alegrias. Segui meu caminho, não sem antes lhe dedicar, tímido e à distância, uma oração e um reiki. Não vi quando chegaram os espíritos bondosos que o guiaram de volta à sua existência etérea, nem os paramédicos que conduziram seu corpo a quem o prepararia para as últimas homenagens.

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