Culpa

Um homem cego batia-se contra as paredes e corrimões da estação Cidade Universitária, talvez andasse ali pela primeira vez. Forte e resoluto, com seus cerca de quarenta anos, retomava seu caminho e não demonstrava insegurança, parecia prescindir da consideração alheia.

Não houve quem lhe desse a atenção devida e lhe dispensasse um braço ou uma palavra. Eu, muito mais por culpa pela sua solitária epopeia do que por solidariedade, ao vê-lo bater a bengala na parede de vidro enquanto tentava encontrar a saída, disse-lhe, venha à esquerda. Ele, “obrigado”. Quer ajuda?, ofereci-me, mas o homem, como eu poderia esperar, respondeu simplesmente “não, obrigado”.

Saiu da estação e foi para o lado oposto ao meu. O tilintar cada vez mais longínquo de sua bengala no chão desapareceu antes de eu vê-lo a subir as escadas à saída.

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