Com todo o respeito, Caetano, eu discordo de você.

Caetano Veloso é um lindo homem de 72 anos e um artista ao qual o Brasil deve homenagem e reconhecimento pela sua imensa relevância no desenho da ‘cultura’ brasileira, desde a segunda metade do século vinte. Sua contribuição às artes nacionais não pode ser questionada, porém suas posições políticas – como quaisquer outras – devem ser sempre tema de reflexão dentre aqueles que, como eu, consideram as falas dos grandes artistas referenciais para a definição da conduta e de posicionamentos pessoais. Sua voz é, portanto, em parte, definidora daquilo que sou, ainda que tal influência se faça pela negação de suas ideias.

Eu amo seus poemas e suas músicas, entreti-me com seu livro “Verdade Tropical”, gostei pouco de sua experiência como blogueiro e detestei sua experiência como colunista de O Globo, assim como costumo detestar seus discursos sobre política brasileira.

Não o considero um sujeito da direita ou da esquerda (rótulo, aliás, que ele parece renegar no referido livro), mas um livre pensador que, embora tenha vivido bem mais do que eu, conhece menos de economia e, acho eu, não procura balizar suas análises na confrontação de dados históricos e sociológicos. Parece-me que o que a imprensa internacional publica ajuda-o a consubstanciar suas opiniões as quais, somadas à sua erudição, inteligência e eloquência algo soberba, conformam seus discursos e se tornam, de pronto, em centros das ‘certezas’ que alimentam as rodas de conversas de artistas e intelectuais igualmente apegados ao velho jornalismo ocidental

No último dia de 2014, o eminente compositor publicou em sua página do facebook um texto em que analisava o que para ele teria sido um “ano sem pai nem mãe”. A certa altura, entre rápidas interpretações sobre diferentes e muito ‘complexos’ cenários internacionais, ao falar sobre o Brasil, elogiou a ‘entrada’ de Marina Silva na corrida eleitoral e acusou o recebimento de um texto em inglês a acusá-la da morte de Eduardo Campos e o credita à “militância petista”. Para ele, a “campanha de Dilma dizimou Marina”.

Considero esta sua dedução um exemplo claro de opinião tendenciosa e um tanto irresponsável. Isto, porque a teoria conspiratória, que deveras existiu, não pode ser debitado à campanha de Dilma Rousseff, embora tenha sido disseminado a partir de blogs que militavam a favor de sua reeleição. A ‘dizimação’ de Marina Silva, entretanto, passou ao largo destas suposições conspiratórias que, dentre tantas outras, tiveram lugar em todos os campos presentes naquela acirrada disputa política.

No mesmo trecho do texto, Caetano comete outra enorme injustiça, ao equiparar os anos FHC e Lula, dizendo ” Os anos FH-Lula foram grande avanço em nossa história. O pouco já é muito: não tínhamos quase nada.” Errado, Caetano! Os anos de governo FHC representaram o que eu chamaria de avanço inercial de políticas macroeconômicas gestadas em período anterior ao governo tucano. Inercial, porque desumanamente entreguista, corrupto e obtuso.

O plano real foi criado por equipe composta por economistas de diferentes matizes ideológicas. Como modelo de condução macroeconômica, pode ou não ser combinado com políticas sociais. As distintas instituições macroeconômicas européias (refiro-me à Europa anterior à instalação da UE), bem como a japonesa, não foram limitadoras das inovações sociais que Estados capitalistas modernos implementaram no pós-guerra. Alguns mais ou menos atadas ao livre mercado e à especulação financeira, todavia todos, ou quase todos, maleáveis o suficiente para se ajustarem à demanda de garantia de acesso a direitos sociais. O que definia as nuances de cada uma destas experiências político-econômicas era a força da pressão popular (e de setores da economia, diga-se) sobre as instâncias políticas.

O que ocorreu no Brasil, com a eleição de Lula, foi exatamente a expressão de uma vontade difusa entre as camadas mais pobres, alheia às políticas implantadas por FHC após a reforma do Estado, levadas à luz por parcelas da pequeno-burguesia e da classe trabalhadora. A partir de Lula, ainda que sem as mudanças estruturais que o país ainda carece, o Estado brasileiro passou a realizar sua vocação constitucional de salvaguarda de direitos sociais. Acreditar na austeridade aguda, como a que foi proposta por Marina Silva e por Aécio Neves, como possibilidade de eventuais correções na insipiente experiência de implantação do Estado Social no Brasil desde 2002 é uma repetição acrítica das opiniões dos articulistas e dos jornalistas econômicos alocados, em grande maioria, nos Financial Times e congêneres brasileiros. Além disso, esta repetição trata-se de uma demonstração de desapego às conquistas sociais que o país vem alcançando na última década, graças ao fortalecimento da ação estatal e da execução eficiente de políticas de valorização da renda.

Não me deixo enganar: Caetano pensa como um intelectual personalista, que, sem parecer atentar-se aos desmandos seculares que continuam a impedir a instalação de Estados autônomos no período pós-colonial inaugurado no século 19, prega – ingênua ou cinicamente – a adesão popular uma plataforma vazia de renovação de contornos meramente messiânicos. Ou ainda há quem pense ser Marina Silva uma candidata imaculada, capaz de encaminhar adiante um projeto de Estado social?

Se a campanha eleitoral de 2014, na qual ecoaram tanto as manifestações populares de 2013 como a morte trágica do ex-governador pernambucano, teve uma qualidade foi a de ‘humanizar’ as partes em disputa. Dilma Rousseff foi chamada a fazer aquilo que jamais fizera desde que assumira a presidência, em 2011: falar com clareza à população, explicar o seu projeto de poder. E ela o fez.

Em termos econômicos, Rousseff garantiu ‘ajustes’ (tenho horror a esta palavra) combinados à manutenção de direitos sociais. O seu governo começou e o que se vê é uma presidenta a se equilibrar na fina corda deste compromisso.

Há os que antevêem, neste difícil equilíbrio, chances de sucesso. Poucos foram os intelectuais de mentalidade fiável que apostaram no contrário. Para mim, trata-se da preservação de uma experiência de gestão macroeconômica que poderá nos levar a ter “um país de todos”. Em 31 de dezembro de 2014, enquanto caetano conjecturava, eu pensava: que bom que ficou claro a todos nós o que significaria a eventual de vitória eleitoral do PSDB ou do PSB. Dilma Rousseff, apesar de Kátia Abreu, de Gilberto Kassab e da Igreja Universal do Reino de Deus, configurou-se como a escolha acertada.

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