Homossexualidade, Édipo e Morte em “Pasolini”

10888794_10205816012578530_4161640943989209788_nHoje assisti a “Pasolini”, de Abel Ferrara. O filme narra os últimos dias da vida terrena do mítico cineasta italiano, Pier Paolo Pasolini. Trata-se de uma linda homenagem, na qual Ferrara opta por intercalar os acontecimentos finais da vida do mestre italiano, conforme conhecidos nos registros oficiais, com encenações de trechos das suas últimas obras, um romance e um roteiro para o cinema. A estrutura do filme é muito bem executada e o resultado é realmente bom.

Admito que não sabia que o Pasolini, a despeito de suas obras e opiniões genialmente subversivas, mantinha uma vida com hábitos pequeno-burgueses estritos, cheia de “ordem”, elegância e um conforto familiar construído em torno dele pela sua mãe e por Graziella, espécie de secretária e ‘parente’, de ar e atitude muito contritos.

Ocorre que Pasolini tinha o hábito de frequentar bares de garotos de programa jovens e pobres e de dividir com eles uma afetividade muito peculiar a gays que habitam este mundo católico, que atenua a culpa pelo desejo sexual com uma expressão de paternalismo ingênuo. Pasolini, na fatídica noite de sua morte, deu de comer, ouviu lamúrias e tentou compensar as carências do jovem que viria a ajudar no seu assassínio, de modo que o ato de sedução misturava-se com uma ação, eu diria, educadora.

A armadilha que levou o cineasta à morte, concluo, é a mesma que tem matado tantos e tantos homens homossexuais, impedidos pela cultura de expressarem amor e intimidade em relações de trocas emocionais mais equilibradas do que estas que, via de regra, envolvem homens maduros e abastados e rapazes vulneráveis.

Incorro, eu sei, no risco de tecer um julgamento leviano sobre sua personalidade e, sem o devido respeito, macular a sua memória de artista superior. Contudo, não consigo deixar de refletir sobre este drama da homossexualidade masculina, sustentado por complexos edipianos não resolvidos e fustigado pela enorme necessidade de sentir-se parte de jogos de sedução ou de relações de companheirsmo.

Ainda que sua obra e suas palavras tenham o poder de por em cheque este ‘mundo cristão’ de ortodoxia católica (e não apenas, claro), sua vida foi a mesma das milhares de vítimas da opressão castradora desta expressão cruel do cristianismo.

Quero acreditar que, com a sua morte prematura e violenta, Pasolini interpôs ao seu/nosso mundo mais um confronto veemente contra uma cultura de criação de assassinos. Ele, que filmou o belíssimo “Evangelho Segundo Mateus”, parece nos dizer que está no amor, seja ele qual for, a chave para pôr fim ao martírio de quem não pode viver livremente suas orientações e desejos.

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