Maitreya

No meu quarto, uma escultura de Maitreya
com adereço místico avariado às costas.
Poeira a cobri-la sua cor bronzeada desbota.

Única representação antropomórfica na estante,
junto a livros igualmente adormecidos, prostra
sobre reiki, meditação, budismo
moedas, óculos, telemóveis e câmeras.

Desacompanhada de outras divindades,
às vezes submersa em fumaça de bronha.
Passa os dias silenciosa
entre as coisas importantes:
anéis, medalhas e outros materiais
garantidores de escassa sobrevida.
Extratos de uma esfera finita,
nomeadamente, planeta terra.

No céu misericórdia exulta,
convida a etéreas fantasias,
porém, mover-se sobre espuma
é estranho a gente ensimesmada.

Chorar por instantes perdidos,
pelos surtos, sinistros e traições.
Pelas mortes de insetos, ratos e répteis,
lançar-me num abismo de esperanças.

Ainda que ame o gesto épico da entidade,
memória mítica de certo poder inaugural,
apesar daquilo, ou por causa desta,
esquivo-me de lhe pousar oferendas.

Longe d’um cosmo ou d’um altar,
em meu quarto submersa,
entre mim e a vida após esta,
vítima da letargia,
sozinha e danificada,
resiste, silenciosa e pálida,
uma pequena escultura de Maitreya.

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