A Leitura de Morrissey

“[…] Twice I have so simply declared myself,
have possessed the enemy, eaten the enemy,
have taken on his craft, his magic.

In this way, heavy and thoughtful,
warmer than oil or water,
I have rested, drooling at the mouth-hole. […]”
Anne Sexton

O Coliseu dos Recreios ia enchendo-se aos poucos. Corri à pista porque não queria perder um segundo sequer deste primeiro concerto, daquela que poderá ser a última turnê mundial de Morrissey. Apesar das milhares de pessoas que foram chegando em cima da hora ao lugar, sentia-me preparado para um novo contato íntimo com um artista que, como poucos, conseguiu traduzir as dores e angústias de um adolescente homossexual e cheio de ‘desejos complexos’, como eu fora em 1983, e manteve a capacidade de me enternecer e de me fazer pensar, mesmo se tratando de um homem mais seguro de si, como eu sou hoje em dia.

A enorme tela branca na frente do palco deixava-me antever que algo especial ocorreria, um pouco antes de ele aparecer com sua voz naquele lugar, para dar o seu show.

Luzes ainda completamente acesas, uma voz feminina começou a leitura de um texto em inglês. As pessoas não se deram conta de que assim começava o espetáculo: com uma leitura. Não pude compreender sequer trechos do texto, uma vez que a plateia que chegara ‘a horas’, já cansada com apenas vinte minutos de atraso, urrava impaciente. Uma pena, porque provavelmente neste texto estava a senha para compreender o que viria a seguir.

Finalizada a leitura, uma sequência de vídeos, iniciada com Ramones, foi composta de musicais somados ao excerto de entrevista de um jovem negro norteamericano, sobre as agruras de assim o ser, mais um trecho de stand up com uma senhora de classe baixa à inglesa, banguela, a rir da rejeição reiteradamente sofrida por ela nas reuniões da pequena burguesia, além de um ‘fan video’ para “The Bulfighter Dies” e uma colagem de imagens sobre  manifestos populares, que se encerrava com o anúncio da morte de Margareth Tatcher projetado numa parede azul.

Dentre eles, surgiu a ode lancinante à morte voluntária de Anne Sexton, no seu poema “Wanting To Die”. Estava completo o prelúdio: era sobre a morte que se falaria ali. A morte querida, a morte violentíssima de seres vivos inocentes, a morte que espreita e que acena com sua mão enorme e dura, a morte que, num sopro, demonstra seu poder em diagnósticos médicos alarmantes, a morte de quem se odeia e a morte de quem se ama. A sua própria morte, sobre isto cantaria Morrissey naquela noite de outono lisboeta. Noite lírica, lua crescente, casa cheia, gente insensível ao lado de gente sincera; desta gente atônita, emocionada, como eu e como ele.

Desde logo, ficou-me a impressão de um show para ser lido. Um show em que Morrissey parecia querer teatralizar mais contundentemente o seu estado de espírito. Fosse ele o Freddie Mercury e no palco estariam bailarinos e atores a interpretarem uma tragédia anunciada.

No início, Morrissey mostrava-se frágil e cansado. Errou a entrada de “Certain People I Know”, deixou de cantar trechos de algumas das primeiras músicas, como “Speedway”, movimentava sem grande ânimo o microfone, de cujo fio sempre foram extraídas imagens de seus shows com enorme apelo dramático, parte indelével de sua iconografia na fase solo. A banda parecia errática e ele idem, além de cansado. Ainda por cima, logo deve ter percebido que ‘encarava’ uma plateia mal educada, pouco envolvida com sua mensagem, absorta, fumante, nervosa e, talvez, ‘sick for hits’, além dos viúvas dos Smiths. Parte desta plateia ignorante não estava ali por Morrissey, mas apenas devido a um torpe sentido cultural, que lhe diz ser aquele ‘cantor’ uma ‘aparência’ a ser adorada. Vazios e estúpidos. Divertiam-se apenas os que foram ali para, além de ouvi-lo e senti-lo, tocá-lo com as próprias mãos ensandecidas, porém atentas, logo à beira do palco. Por que não fui para lá?

Morrissey parecia querer daquelas outras pessoas aquilo que elas nunca poderiam lhe dar. Fui capaz de ampliar esta sensação e pensar, quem sabe ele já não esteja cheio dessas turnês, quem sabe ele não tenha se reencontrado na literatura, quem sabe o vazio daquela sua vida intensa de ídolo de massas desesperadas e ocas não lhe tenha aberto um buraco ainda maior em sua alma do que em sua carne, quem sabe o que o fazia querer morrer não era aquela não-resposta, aquele reencontro com uma horda vampiresca que constantemente o ‘caça’ para aliviar tensões emocionais em sua música, sem conseguir por sua vez mergulhar na realidade da angústia particular do artista cultuado e, assim, nada lhe dar em troca? Pois, quem sabe não eram estas inumeráveis coisas tristes aquilo que o fazia querer nunca mais voltar àquele palco?

Terá sido a morte de sua persona, esta a que estamos habituados e que se vem dissolvendo desde  “Ringleader Of The Tormentors”? Senti que presenciava uma morte ritual, simbólica, com potência mais definitiva e devastadora para mim e para todos aqueles outros ‘fanáticos’ do que para ele próprio. Sem aquela profusão de gritos e aplausos, ele se libertará da obrigação torturante de ser ‘o perseguido’, obrigação que sempre o manteve alheio à mais remota tradução – e cura – dos seus próprios males. Acho que ficaria feliz se descobrisse que estas minhas intuições são verdadeiras, porque assim eu, sem precisar insistir a preces amiúde inócuas, teria-o mais tempo no mesmo mundo, ao mesmo tempo, que eu e, quem sabe, eu ainda não me depare com ele numa esquina qualquer, à hora do almoço.

Quando chegou “Kiss Me A Lot”,  veio finalmente à tona o Morrissey dos palcos, vigoroso e luxuriante. A voz, que até então parecia  não se ter encaixado ao restante da banda, soltou-se maravilhosa – aquela mesma voz que eu ouvira no Rio de Janeiro e Belo Horizonte, em 2012. Na sequência de “Throwing My Arms Around Paris”, enquanto cantava “World Peace Is None Of Your Business”, ele quis testar a plateia, parando de cantar na segunda estrofe desta ‘marcha’, como se quisesse perceber se a sua mensagem, impressa na canção, estava marcada nas vozes dos presentes. Ou talvez para saber quantos dentre eles teriam coragem de cantá-lá. Todavia, nada. Quase ninguém cantou os versos subversivos e eu pensei, Morrissey perde mais um punhado de esperança no ‘mundo’ nesta era de arrogantes, histéricos e superficiais.

O concerto corria perfeitamente, com minhas lágrimas em “Trouble Loves me” – lágrimas com gosto das inúmeras vezes em que eu acreditei, ao ouvi-lo cantar, que ele soubesse a forma de dizer aquilo que gritava na minha alma desencantada, apesar de irrequieta. Então questionei-me: eu sei dizer o que sente o Morrissey? Quero tanto poder-lhe fazer este extremo favor, meu caro amigo, eu disse-lhe entrementes, embevecido com sua música. Tocavam-me novamente a sua concessão e a sua generosa entrega, e estas foram ampliadas por este espetáculo de extremo lirismo e poesia, com sua individualidade inteiramente disposta. Mas assim o foi e assim o é com este artista: poemas embasando ‘canções pop’. No Coliseu esfumaçado e quente, eu sentia a presença literária (e musical) de Morrissey, única ‘entidade’ que não morreria naquele espaço. E ela cantava, “… if they dare touch a hair of your head I’ll fight to the last breath…”

E assim ele continuou a me amar, a cantar alguns dos tantos versos que me acendem faíscas curadoras, que funcionam às vezes como anos de terapia. Até deixar o palco pela primeira vez, depois de “One Day Goodbye Will Be Farewel”, e voltar, não mais com a roupa completamente branca. Vestido agora com uma camisa preta, cantou “Asleep”, inicialmente acompanhado apenas pelo piano de Gustavo Mansur. Fechava-se o ciclo, eu o compreendia: Morrissey morria diante de nós. Ficava o Steven, que canta atabalhoadamente “First Of The Gang To Die”, joga a camisa à plateia ingrata e fria e corre para fora dali, sem completar o discurso fúnebre do ‘outro’.

Certamente, diante de um grupo de pessoas melhor conectadas a ele, haveria um segundo retorno, pensei. Ficará para depois a conclusão final desta incursão sobre o derradeiro suspiro do ‘ser’ que criou canções que tantas vezes me salvaram a vida.

Tenho absoluta certeza de que ele deixará de fazer turnês em breve, quem o lia nessa noite em Lisboa passou a saber que, depois de morto para os palcos, ele viverá muitos anos, com seus livros. Pena de quem não o souber ler. Como os que ‘perderam’ seu teatro. Foi sobre todas aquelas mortes que ele falou, todo o tempo. Ele apresentou-nos sua nova casa, com seus novos amigos, desde o grande início do show. Pena mais uma vez de quem não estava ali para ouvi-lo.

"Asleep"
“Asleep”
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s