Pressa

Mal as portas do vagão se abriram e a chinesinha passou por mim tal qual um foguete, nem deixou rastro. Curioso, decidi acompanhá-la para tentar descobrir o motivo de tanta pressa.

Subiu as escadas com os sapatos a estalarem na pedra, num pletórico tac tac. O cabelo longo e preto amarrado, a pendular entre as paredes róseas da estação, o celular na mão direita, com um fio que ia até os fones de ouvido, e uma bolsa clara grande de couro pendurada no braço esquerdo.

Magrinha, a correr desesperada, com os apetrechos a balançarem no seu ritmo, ela conseguia tornar-se ainda mais estranha ao ambiente que, àquela hora da manhã, já passado o aperto das oito e meia, seguia calmo. Agilizei-me em seu encalço, para descobrir aonde ela iria parar, enquanto os demais continuavam cabisbaixos em suas marchas lentas.

Na escada rolante, ela não deixou de dar seus passinhos ligeiros para subir antes de todos e eu continuava intrigado, porque não havia sinal de metrô a chegar à plataforma. Talvez, uma urgência algures pela cidade, por isso ela correria ansiosa para embarcar.

Na plataforma, procurei-a e ela se sentava, fadigada, a olhar a esmo, como se estivesse tonta. A bolsa deixada aos seus pés e o celular na mão direita, que pousava sobre a perna. Os ouvidos ouviam música?

Sentei-me ao seu lado. Ela parecia hibernar, a mão direita movera-se apenas o suficiente para voltar a palma para baixo e o celular deitar diretamente sobre a perna..

Passaram-se quase cinco minutos até que o metrô chegasse. Assim que apontou no túnel, ela se levantou, como se acendesse de um sono profundo. Ladeada por mim e outras 3 pessoas, quando as portas se abriram esgueirou-se, sem nos empurrar, e cuidou de assegurar seu lugar no vagão que, a despeito de sua pressa, seguiu com inúmeros acentos vagos. Novamente o olhar a esmo, explorando, até que o celular passou a receber sua atenção, com os dedinhos a escorregarem pela touch screen.

Não me parecia preocupada com o que quer que fosse, na verdade, eu lia nada em seu rosto concentrado no aparelho. Imaginei-a numa jornada de trabalho chinesa, com catorze horas diárias de esforço, ou seria este pensamento um rasgo de preconceito? Admiti que sim.

Continuei, todavia, a observa-la: ainda não se adaptou à pacata Lisboa, pensa estar em Xangai, com milhões de pessoas à sua volta, a competirem por um acento no transporte público – e talvez sinta muita falta disso. Seu estado normal deve ser o cansaço e eu, na minha curiosidade do ‘ver, julgar e agir’, acabei por ser, antes de humorado, mais um homem preconceituoso, dentre quantos ali no vagão do metrô sentido Odivelas?

Isto lhe daria sempre toda a razão de correr aflita pela cidade.

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