Pequenez

Um cão pequenez esperava à entrada do supermercado, preso a uma barra de ferro.
Quando a sua dona, senhora com prováveis oitenta anos, ocupou um lugar na fila, ele se levantou sem festas.
Quantas vezes aquela espera se repetiu em sua vida?
Idoso como ela, à hora de mais uma espera, sequer abanou a cauda ao vê-la com um sabonete e duas frutas nas mãos. Todos pareciam cansados. Nada nas mãos da idosa era para ele.
Entretanto, sua felicidade de ancião consistia em saber que ela voltava para leva-lo de lá. A qualquer momento, um faltará definitivamente ao outro e esta espera, sim, pareceu-me que afligia seus olhos, que lacrimejavam.

A morte da velha senhora seria mais terrível que a sua própria. A espera consolada do cão fazia a sua dona se lembrar de que não era apenas a morte sua companheira. Ambos caminhavam juntos sobre um tênue fio de vida, encaravam seus fins.
Ela olhou em sua direção, a conferir sua presença enquanto, ensimesmada, enfiava as compras numa bolsa de pano para depois, com a calma das mulheres idosas, entregar o dinheiro à moça do caixa, que sequer percebia a presença daquele pequenês lento e triste, acorrentado à barra de ferro logo à entrada.
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