Faro

Eu ia bem atrás dele ao sair do vagão, quando de repente senti o cheiro de lama seca a me invadir como num encantamento. Reparei naquele homem ruivo e elegante que, depois de me tomar para si com o seu suor amanhecido, parou despreocupado para ler uma qualquer notícia urgente, ancorado em suas pernas abertas, tendo os braços a segurar o jornal como se este fosse meu corpo embevecido. Com suas costas tão próximas a mim, emaranhei-me num idílio luminoso, em plena plataforma do comboio metropolitano.

Enquanto isso, o restante da manada passava por nós, ignorante àquela aura de delícias fulminantes, ocultas. Eu me deitava na terra ocre à beira de uma cachoeira, sobre a axila felpuda, à leste da vasta planície de pele macia coberta pela selva onde meus desejos corriam. Eu, com um ardor exasperado e uivante, lancei-me numa queda lenta sobre um colchão de folhas secas – quão maravilhosa esta queda! E, neste sonho, ele ria…

Eu ouvia um cavalo a relinchar num campo verde enquanto chovia, trovões emanavam dos meus passos, a anunciarem o fim daqueles instantes; fim marcado nos meus passos decididos ao trabalho, e ele com sua fragrância ardida de limão e ferrugem, natureza viva, na qual sucumbia o odor metálico dos trilhos do trem que, entretanto, partia.

O relevo da barba ruiva, mais o desenho imaginado do pênis adormecido na pubis do seu outro lado, entre as pernas abertas, a exalarem, neste mesmo animal sonhado, mais essências inalcançáveis.

Eu, com o rosto entre suas omoplatas e meus pés desajeitados a baterem acidentalmente em seus pés, também estes com prováveis aromas secretos, taus quais os da nádega voluptuosa de homem invulgar, os da cabeça vermelha e os da nuca rija.

Seu banho adiado, seu aroma vigoroso a jorrar, para fora do seu corpo, o calor cheiroso que produzia seu sangue viçoso e que me ouriçou, como se me banhasse, sem saber eu se, depois de passar por ele para nunca mais voltar a senti-lo, haverá outro corpo que cheirará tão forte quanto este e que também me fará parar o tempo para farejar em sua órbita, como farejei e plainei na órbita deste homem grande estatelado, com o jornal entre os braços, na estação Saldanha, unicamente a nós dois reservada, do qual eu sentir o cheiro nas costas subitamente prostradas à minha frente.

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