Uma Pedra Perfura um Rio

Uma pedra perfurara um rio
lançada por uma menina, que sorri.

A menina acredita que o rio sentira a pedra lançada por ela
Que a pedra vivera, intensamente, o voo e se assustara antes de se chocar com a água do rio.
Que um grão de areia no fundo do rio arregalara os olhinhos, pela ameaça da pedra que caia.
Que dois peixes fugiram agilmente da pedra, antes de ela atingir o grão de areia arregalado do fundo do rio
Que a pedra maior que havia ficado na margem do rio agora sente a falta da pedra pequena.
Que a areia onde estava pousada a pedrinha lançada por ela agora sente um vazio.
Que uma ave que assistia ao lançamento da pedra pensara que esta voava em sua direção e se aliviou quando ao vê-la cair no rio.
Que a mesma ave voara também, com medo de que outra pedra fosse atirada pela menina, desta vez contra si.
Que o ar por onde passara a pedra tentara fazer com que esta voltasse ao seu lugar na margem do rio, porém não era páreo à sua monstruosa força de menina.

A menina que jogara a pedra ao rio pensa tais coisas e sorri, por saber que são mentirosas as aventuras que ela costuma imaginar e contar.
Porque é da sua dor que ela constrói a sua percepção sobre as coisas e que as traduz em histórias mirabolantes.

Ela é apenas uma menina que lançara uma pedra a um rio.
Ainda que ela fosse a pedra, a ave, o peixe, o grão de areia, o ar ou o rio, tudo o mais dependeria do modo como ela sentisse a vida e a morte das coisas e dela mesma.

Porque, afinal, ela é apenas uma coisa que morre e que tem medo, tal como a pedra, o peixe, a ave, o grão de areia, o ar e o rio.

Mesmo que isto seja verdade.
Ainda que isto seja mentira.

Uma menina à margem de um rio
apedrejara a vida, e sorri.

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