Gatos

Apiedo-me das pessoas que portam bolsas.
Sofro pelos cães que arrastam trenós,
ainda mais pelos cavalos que levam charretes.
Choro pelos burros atados a carroças.
Burros forçados a puxarem carroças.
Burros sequer sabem o que puxam,
nem por que são obrigados a fazê-lo?
Pessoas via de regra carregam bens alheios.
Pessoas vivem, afinal, feito burros, escravizadas.
Boa parte delas tam nada seu para levar consigo.
Gosto destas pessoas que nada têm.
Gosto mais dos cães e dos cavalos.
Prefiro os burros, tanto mais pobres.
Gatos, por seu turno, odiados por serem livres.
Gatos, peritos em fazerem nada.
Gatos roubam sem serem vistos.
Cães e cavalos, indiscretos quando roubam.
Burros morrem inanes por serem ingênuos.
Gosto dos gatos quando roubam, astutos.
Gosto mais dos cães, quando pegos a roubar.
Gosto dos cavalos e dos burros incautos.
Gosto nada das pessoas que roubam, larápias.
Gatos sabem que nada existe por si mesmo:
coisas existem em função de necessidades.
A necessidade do gato não é a usura da pessoa ladra.
A nudez é o estado natural do gato.
Nulo de culpa, intuitivo, existe o gato.
Gosto das pessoas que se orgulham por nada terem.
Gosto mais daquelas que de nada precisam.
Gosto das que se ornam simplesmente.
Gosto mais das que andam nuas, feito os gatos.
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